Reconstruir
- Contos Conjugados
- 28 de mai. de 2023
- 10 min de leitura
Atualizado: há 3 dias

Salvador acompanhava a destruição promovida pelas máquinas demolidoras, registrando com o telefone celular em fotos e filmes e enviando-as virtualmente ao pai. Sentia prazer ao trabalhar nessas atividades, em especial quando à implosão os engenheiros preferiam o método mecânico, mais lento e duradouro. Nas semanas anteriores, junto a outra dúzia de operários, seguiu ordens de recolher grades de ferro, janelas de alumínio, telhas e coberturas de zinco, antigas e densas maçanetas, portas de madeira maciça bem envernizadas, fios elétricos, materiais que a empreiteira vendera para fazer caixa. Isso dera ao espaço uma aparência que o fazia se lembrar de Pripyat, a cidade-satélite de Chernobyl, pós-desastre nuclear, com seus esqueletos de prédios vazados, segundo vira em um documentário recente em algum streaming. Além disso, o processo de desconstrução homeopática para ele havia sido prelibação da etapa mais violenta do aniquilamento do lugar que afinal testemunhava. E ele podia jurar, enquanto tentava captar o fenômeno com seu aparelho telefônico, que cada impacto do maquinário pesado nas paredes dos prédios liberava um som que se assemelhava a vigorosos toques simultâneos de todas as teclas de um velho piano.
A freira estava sentada na segunda fila de bancos da capela vazia. A luz do fim da tarde atingia seu pequeno corpo debilitado filtrada pelos vitrais formados por quadriláteros irregulares, sobretudo azuis e brancos mas ocasionalmente vermelhos e amarelos, cujos resultados eram figuras abstratas. À sua frente, entre imagens de madeira de Jesus afagando de modo protetor uma criança e de Maria de Nazaré erguendo nos braços o seu menino, letras grandes destacavam-se na parede revestida de pedras São Tomé, iluminadas pelas velas sobre o altar de mármore, a formar a oração “o vosso espírito enviai, senhor”. Ela refletia, pela primeira vez, acerca da viagem contrária, agora que intuía a chegada do momento de o seu espírito peregrinar na finalidade de se entregar às mãos do Senhor.
Francesco mistura o cimento. Preparadas por outros operários sob sua orientação informal, gravatas de madeira dispostas em sequência abraçam gaiolas metálicas, para construir as colunas sobre as quais se apoiará parte do edifício a ser levantado. O sol agradável que lhe aquece o rosto de meia idade é oportuno, porque o temporal do início da semana provocou a cheia do rio que corta o bairro e, embora o terreno alto proteja a obra de enchentes, o episódio comprometeu os trabalhos ao dificultar a chegada dos trabalhadores. Dizem que, desde que suas águas límpidas engoliram uma carroça com cavalo, carga e charreteiro como por encanto, os moradores desenvolveram profundo respeito pelo caudal, julgando-o mágico. Francesco não se impressiona com tais histórias. Trabalha com concentração e habilidade prática. Apresenta-se como pintor, desenhista e artista (na esteira do falecido pai, artesão especializado em ferraria e serralheria), não obstante os registros oficiais, os quais não sabe ler, designarem-lhe o ofício de pedreiro. Com frequência, redesenha as plantas dos projetos para adaptá-las às necessidades inesperadas que surgem no decorrer das construções, o que não raras vezes é acatado pelo mestre de obras. Tivesse alguma formação e poderia ascender a funções de maior prestígio, assemelhando-se aos antigos capomastri da sua Itália natal.
A freira saiu da capela usando a porta de trás. Caminhava com dificuldade, por conta de um defeito na coxa esquerda que tinha desde que nasceu e tornava uma perna menor do que a outra. Em um hall anexo fechado, havia uma escultura de gesso representando o tema da Pietà. Tinha evidente inspiração na consagrada versão de Michelangelo, que ela admirara em sua única visita ao Vaticano, pouco antes de sua congregação enviá-la ao Brasil, ainda muito jovem, não mais do que uma adolescente. A imagem convocava as irmãs à sua missão piedosa. Ela comparou a figura com a do altar, admirando-se com o fato de os mesmos afetos poderem ser representados sob emoções tão distintas. Pensou, enfim, que os braços da mãe são o maior consolo, nem sempre possível, à hora da morte. Deus é pai, ponderou, e Deus também é mãe.
Salvador usava o martelo pneumático para o acabamento fino da destruição, extinguindo tudo o que sobrevivesse às máquinas de grande porte. Antes desse serviço, nunca havia entrado no local, embora residisse próximo. Mesmo após a instituição de ensino deixar de ser um internato exclusivo a moças com formação para magistério e oferecer turmas mistas de ginásio, seu pai, viúvo muito cedo, nunca gozara de situação para o matricular. Lembrava ele vagamente, contudo, de na infância, logo que aprendera a ler, e sempre que passava em frente à escola e identificava seu próprio nome no letreiro ao alto por trás das flores do jardim, imaginar-se dono do lugar onde umas mulheres viviam vestidas de pinguim. Absolvia a criança do virtual sacrilégio a absoluta falta de formação religiosa. Olhava apenas por fora aquele conjunto arquitetônico estruturada em platôs acompanhando a rua lateral em aclive e fantasiava o seu interior como um castelo do qual fosse o rei.
A freira, sempre mancando, num caminhar habitualmente difícil e limitações potencializadas pela idade e o depauperado estado de saúde, deslocou-se à pequena varanda que se estendia na lateral da capela. Encontrava-se no segundo andar da base interna do U, aproximado formato do conjunto predial no terreno da escola. O domingo suscitava silêncio. Admirou o pequeno jardim que se destacava logo abaixo, no térreo, com uma vegetação delineada a tesoura e a ascensão do perfume suave das azaleias cultivadas pelas próprias irmãs, tudo cercado por um gradeado baixo. À frente das flores, estendia-se, seguro e exclusivo como o Paraíso na Terra (abrigado pelos dois braços de prédios cinquentenários que lhe cercavam por ambos os lados) um vasto pátio aberto.

Francesco distrai-se por um momento com a chegada do padre da paróquia do bairro e três freiras, que vieram acompanhar a fiscalização da obra. Ele soube há poucos dias que a arquidiocese do município cedeu o terreno ao projeto da congregação europeia de fundar uma escola de caráter confessional na cidade. A escolha é estratégica, a freguesia de chácaras arborizadas passou a ser cortada pela via férrea, ganhou estação e é a primeira do subúrbio da capital federal a receber energia elétrica. Ele então observa a mais jovem das religiosas, uma noviça que não passa de uma menina e parece claudicar um pouco da perna esquerda. Pensa, então, em Maria Santa, que tem idade próxima à da freirinha. Não devia ter expulsado a filha de casa. Recuaria da decisão, caso soubesse seu paradeiro. Mas a notícia da gravidez logo após a morte da esposa assaltou o homem em momento de descontrole. Reconhece que sua atitude foi também um golpe violento para Maria Santa, que de alguma forma perdera o pai logo após sofrer a perda efetiva da mãe. Olha de novo a freira e projeta-lhe a filha. Corre a notícia de que jovens moças parentes dos operários da obra terão assento gratuito no internato, caso desejem a formação de professora. Seria uma enorme oportunidade para ela, se o estado de pecado em que se encontra não impedisse qualquer sonho em um ambiente rigorosamente puro e sacro como aquele.
A freira observava da varanda o pátio da escola, revestido por placas hexagonais de cimento. Bancos de alvenaria em sequência fechavam quadrados de onde se erguiam convidativas árvores. No ponto médio aproximado do átrio, uma passagem elevada unia, na altura do segundo andar, os dois lados da edificação, abreviando pontos no espaço e no tempo. Ao fundo, quase no limite do terreno, próximo ao muro mediano que margeava a rua lateral em aclive ao longo da qual se desenvolvia o colégio, sobressaía uma árvore mais antiga e frondosa que as demais. A própria freira participara do seu plantio, ainda muito jovem, na época da construção dessa instituição de ensino que era o seu lar. Poucos metros antes, à esquerda, o pátio estendia-se por baixo de parte do edifício, suspenso no ar por uma sequência de colunas formadas por grandes pedras de aspecto rústico, uma espécie de pilotis. À imagem de tais pilastras, era como se braços vigorosos de Deus erguessem a construção do chão e abençoassem a todos com amparo contra intempéries — antes, agora e na hora da morte.
Salvador seguia recolhendo o entulho, vestígios mortais da antiga civilização escolar. A vizinhança apiedava-se pelo fechamento do colégio que estivera ali por décadas. Muitos, como ele, nunca puderam frequentar o espaço entre os altos muros, mas se orgulhavam da composição centenária que se exibia por trás da bem recortada vegetação num nível acima da via principal do bairro. Além disso, alguns moradores, mesmo nos últimos tempos mais declinantes, viviam ainda de um comércio que lhe era em certa medida dependente, de papelarias a livrarias, de carrocinhas de rua a lanchonetes, de serviços de fotografia a estacionamentos ou guardas informais de carros. Mas o fechamento daquela escola somava-se à concordata de uma universidade local e à transferência da grande fábrica de açúcar. Vários vizinhos seus, atualmente, contratavam empresa para ter emprego de motorista ao invés de serem contratados por ela. E tudo agora parecia em ruínas no bairro fantasmagórico, o único empreendimento que se espalhava com sucesso pelos arredores eram os prostíbulos. Mas Salvador não comungava com os lamentos dos demais moradores do entorno no que diz respeito à falência do velho colégio religioso: era a primeira vez em que ele gozava de alguma remuneração motivada por aquele espaço escolar e, além disso, idealizações sobre o seu interior ele já havia demolido dentro de si há muitos anos.
A freira ansiava por se despedir do seu Colégio Nosso Senhor Salvador, internato que formava moças para o exercício do magistério ou de práticas comerciais. Sob o absoluto impedimento de alcançar com os olhos todos os seus espaços em simultâneo, pensou que o poderia fazer com a voz ou algo que o valesse. Com tal intuito, desceu, lentamente, os lances de escadas de mármore escrupulosamente limpas e, uma vez no andar térreo, tomou como caminho derradeiro o lado esquerdo do U.
Francesco pega no bolso frontal esquerdo da camisa uma diminuta joia e recorda Esmeralda, a segunda filha que teve com a recém-falecida esposa. A pequeníssima pedra em suas mãos é valioso presente que seu irmão primogênito, mais bem sucedido porque já chegou escolarizado da Itália e padrinho da menina, deu em seu nascimento, o qual ela passou a usar no pulso desde o batizado. Também a caçula ensejaria ali bom futuro, se a epidemia de bexigas não a tivesse fatalmente vitimado aos dois anos de idade. Ele acaricia entre os dedos a imaculada gema que traz consigo de modo inseparável desde o fatídico dia. Sendo homens os demais filhos, Francesco conclui que aquela instituição não é destino dos seus. A joia verde faz o homem lamentar que sua inabalável saúde o tenha feito resistir em lugar da pequena e linda criança cujo rostinho foi arrebentado pela moléstia. Sua então pretensa imunidade a doenças soa como maldição divina. Não pensaria assim caso antecipasse que, em menos de dez anos, ainda que passando ileso pelo tempo da gripe espanhola, seria mais tarde vencido pela tuberculose.
A freira, caminhando por um corredor, deixava para trás a cozinha, de onde surgia o cheiro da sopa que engrossava ao fogo e das batatas que cozinhavam, e o grande refeitório, ainda vazio à espera das meninas e das irmãs para a ceia, que não tardaria a ser posta. No lado contrário, as grandes janelas expunham de modo intermitente, ao ritmo dos seus passos lentos, o pátio que ela antes observava do alto. Tomou um corredor que contornava o refeitório e desceu outro à direita, menos iluminado. Por uma pesada porta, alcançou a sala de História Natural.
Salvador destruía o que restara das bases de antigas e largas pilastras do pátio, revestidas de pedra. As próprias placas finas que lhe forjavam a solidez haviam sido retiradas previamente, sob igual finalidade de revenda. Conduzir o equipamento era algo como domar um cavalo selvagem. Interrompeu o serviço na terceira coluna para descansar o corpo da trepidação. O sol queimava impiedoso o seu rosto curtido, sugerindo que seus quase cinquenta anos fossem mais. Do calor intenso procedia a ameaça de tempestade no fim do dia, sempre a fazer transbordar o valão que corta o bairro. No último verão, ele perdera vários eletrodomésticos e móveis e seu velho pai adoecera. Enxugou a testa e olhou para baixo, protegendo os olhos da luminosidade. E, em meio aos escombros finais do pilar, parcialmente preso ao concreto, viu despontar algo que brilhava à luz do sol. Verificou se não havia ninguém próximo, retirou do cinto o martelo e o ponteiro de aço e acocorou-se. Em segundos, retirou dali uma correntinha deteriorada, mas provavelmente de ouro, na qual uma pequena pedra verde-escura exibia ainda alguma beleza apesar das muitas rachaduras que magoavam a face da joia. Guardou-a logo no bolso, avaliando que talvez conseguisse algum dinheiro por ela no centro da cidade. Com um pouco de sorte, poderiam, o pai e ele, por fim migrar daquele decadente bairro.
A freira estava numa sala de alto pé direito e madeira acanelada e janelas-guilhotina, com piso de tábua corrida que subia até o fundo em largos degraus ascendentes onde se distribuíam as carteiras escolares e os armários fixos que cobriam duas paredes inteiras. Nesses, as portas de vidro exibiam minérios diversos, anfíbios em formol, aves empalhadas e mesmo um frasco que conservava um feto perdido. Ao lado da porta, por falta talvez de espaço adequado, estava um piano vertical. Ela sentou-se na banqueta, ergueu com dificuldade a tampa do teclado e começou a tocar. Após uma vida dedicada a Deus, concedeu-se uma música leiga, Franz Schubert. Para trazer aos dedos a Áustria da sua infância e a Viena que foi seu berço, não optou por Ave Maria. Fossem talvez sua mais antiga lembrança, e ali preferia se asilar, as performances de sua mãe na execução de Der Doppelgänger acompanhada da voz do seu pai, na privacidade familiar. Sem o componente vocal, as notas chegaram espaçadas por breves silêncios em todos os cantos do colégio: os jardins, o viveiro de araras, o alojamento das alunas, a quadra de voleibol, o centro de eventos cívicos e religiosos, a clausura das freiras, a biblioteca, o pátio. Nas notas que exigiam vigor, recolheu quase toda a força restante para lhes conceder tanta intensidade que penetrassem as paredes e nelas se retivessem vibrando até o fim dos tempos.
Francesco prepara-se para despejar o concreto em mais uma gravata de madeira. Já está no terceiro pilar. Constata que as religiosas se distraem junto ao muro baixo de pedra quase no limite do terreno. Demora a entender que plantam algo, uma horta, uma árvore. Comove-o a jovem freirinha manca que se abaixa com dificuldade para colocar as sementes na terra. Aproveita que ninguém o observa e, antes de derramar a mistura de cimento, areia e brita, deixa que se precipite ao fundo a pequena esmeralda presa à correntinha de ouro. Experimenta esse novo sepultamento como se revivesse o mesmo luto. Ele mesmo será o responsável por fazer todo o acabamento artístico das pilastras, da base ao capitel, passando pelas colunas. Enquanto proceder a colocação das placas de pedra rústica, cuja solidez legará ao espaço vocação para eternidade, sentirá o consolo de que, enfim, uma vez resguardada entre as rochas e protegida de moléstias, a pequenina Esmeralda terá lugar eterno naquela instituição de ensino.
A freira, após deixar a sala do piano e ignorar uma larga escada que levaria de volta ao andar superior, alcançou a saída, uma passagem que desembocava na fração coberta do pátio. Na porta dupla de madeira, um gradeado de ferro que protegia o visor retangular de vidro fosco desenhava o ícone da sua congregação. Despediu-se com gratidão, num leve toque dos dedos. Caminhou, com mais sacrifício, em direção às pilastras. As alunas e as demais freiras do convento-escola, atraídas pela música incomum que tomara o internato, desciam a escadaria a avistavam, já antes mesmo de cruzarem a porta. Na altura da terceira coluna, a freira não teve mais forças e ali se apoiou com a mão direita. Deus é pai e Deus também é mãe. Sentou-se pois ao chão, as costas no pilar, e expirou, consolada no piedoso braço de pedra.




Comentários