Equilibrar
- Contos Conjugados
- 22 de out. de 2022
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Atualizado: há 5 dias
A música parou e ele tem que continuar a andar, retornando ao hospital, onde sua mãe é submetida a uma intervenção cirúrgica para devolver a visão plena de um dos olhos, o direito ou o esquerdo, ele não sabe ainda. Naquela manhã de alta primavera, a mulher havia se internado para esse fim, após prévia marcação, em data que gerara contragosto porque coincidia com o aniversário desse seu único filho e ela não gostaria de impedir que comemorassem os seus vinte e cinco anos, embora ele não se importasse. No fim, a agenda profissional do médico havia sobrepujado a dela, de cunho pessoal.

Dá-se conta de que deve voltar tão logo o carrossel cessou o movimento, observado de modo quase hipnótico há poucos segundos. Acabou também a canção de realejo de tirar sorte a acompanhar as voltas dos cavalos vazios, vinheta que parecia tocada em acordeom, como o som de uma caixinha de música. A mãe, habituada a ouvir muitos discos desde quando passara a enxergar menos, teria apreciado, como o show de todo artista. O primeiro pedido assim que se instalaram no quarto do hospital foi para ligar, baixinho, o rádio de pilha portátil, um Philco Ford creme de três faixas, trazido de casa. Ele levantara a antena e a caixa de som prateada a distraíra até a chegada do médico.
A melodia, saída da coluna central do brinquedo do parque, desenvolveu-se no sentido normal, apesar do movimento inverso do mecanismo. A mãe certamente não entenderia por que o carrossel sem crianças esteve rodando ao contrário. Ele também não percebia o motivo. Devia ser espécie de manutenção, forma possivelmente eficaz para lubrificar as engrenagens... mas não tinha cabeça para esse mistério. Bastou o espetáculo dos cavalos sem montadores a galopar para trás em sua marcha regular e disciplinada para o manter petrificado ali, enquanto tentava esquecer ou compreender toda a discussão que acontecera (ou não, porque se dera na falhança de suas reações) duas ou três horas antes.
Ele está um pouco mais calmo agora, após, enquanto assistia aos giros inversos do carrossel, finalmente explodir num choro resultante de uma dor moral pungente. Mas ainda não lhe sai da lembrança viva o momento do médico entrando no quarto da mãe para uma pequena conversa pré-cirúrgica. Ao invés de perguntar sobre o seu estado e lhe trazer segurança quanto ao procedimento ou mesmo esclarecer se operaria nessa data a vista direita ou esquerda, ainda não definido, o velho cirurgião apresentara, por outro lado, como primeiro questionamento, em tom arrogante e até sarcástico, sob voz alta, quase um grito impositor, a indagação, a vir, segundo ele, antes de mais nada: em quem vocês vão votar para presidente nesse segundo turno? O rapaz aniversariante, sentado estava próximo ao leito da mãe, assim permanecera, desarmado, perplexo, o assunto estapafúrdio para a ocasião embora tema dominante em qualquer rodas de conversa naquele tempo em que estava em curso eleição presidencial direta no país pela primeira vez em quase trinta anos, cujas urnas decisivas se avizinhavam. O que pretendia o médico e qual interesse haveria na abordagem? Condicionaria de alguma forma o sucesso de trabalho naquela tarde à resposta que lhe convinha?
Na sequência, o rapaz, quase todo o tempo calado, ouviria do cirurgião algo facilmente classificável como arsenal de despropósitos, dado o recente contexto de abertura política. Não consegue, apesar disso, elaborar completamente por que o atraiu momentos depois o carrossel girando ao contrário, sobretudo dada a figura trôpega de sobrecasaca negra que, de repente, subiu nele para correr entre os cavalinhos, no sentido oposto ao do movimento do brinquedo naquele instante, mas que seria o seu decurso original. O rapaz olhou ao redor, ninguém todavia no parque aproximou-se para retirar o louco bêbado que, trajando luto, forjava uma dança na corda bamba de sombrinha entre os pelotões desmontados, sorrindo sempre ainda que pudesse se machucar; certamente, os funcionários locais já estavam acostumados com a sua bufona presença, talvez insistente, e a inutilidade de afastá-lo os teria vencido. Testemunhando a irreverente e estranha performance, o jovem interessava-se pela imagem dos cavalos galopando para trás e do ébrio entre eles correndo para frente com o corpo envergado, aguardando para ver se ele seria capaz de se mover na direção desejada ou se quedaria arrastado junto com os animais.
Habituado que a autoridade puramente técnica confundisse a audiência, a lhe proporcionar credibilidade em outra matéria mesmo não médica, o cirurgião se empertigou quando a paciente insinuara votar no operário, embora o tivesse feito indiretamente, ao negar ser capaz de depositar confiança em quem ela chamava de engravatado demagogo. A falta de facilidade para impor a sua posição e fazer nascer mais votos ao seu candidato com certeza o pegara desprevenido, resultando em óbvia contrariedade. Julgando oportuno tirar o foco sobre ela, o filho, mais enfático, declarara o mesmo voto, ainda que nem tivesse a convicção. O médico, peito estufado, deu passos rápidos até ele que permanecia sentado e inclinou-se um pouco apenas para aproximar os rostos sem contudo perder a vantagem de manter em altura maior os olhos muito abertos e indignados. Eu não quero viver em um país comunista de novo, bradou, num misto de raiva e poder, não podemos ser governados por um grevista terrorista e analfabeto, e ameaçara, depois vocês irão reclamar que os militares intervenham, concluindo ufanista, já com a voz quase a falhar, pensem bem antes de dar o voto para esse delinquente que não gosta de trabalhar em vez de um homem de bem, patriota honesto, sem conchavos, católico, para combater a corrupção e os vagabundos do funcionalismo público!
O rapaz tinha dezenas de respostas para os impropérios coloridos artificialmente, inclusive o de que no primeiro turno nem tinha votado no operário, mas no gaúcho, como a mãe fazia em escrutínios do Rio de Janeiro havia anos, mas receava o fato de estar diante do homem que em poucos minutos enfiaria um bisturi nos olhos da mãe, ainda que nessa altura já duvidasse que o profissional tivesse o equilíbrio necessário que exigia a tarefa. Para demonstrar que não era nenhum leigo, o rapaz citara que o combate à corrupção apregoado pelo candidato do médico deveria ser uma questão do judiciário e não de um chefe do executivo que se arrogasse a função de xerife, recebendo como réplica um quase monossilábico Besteira! Mais incisivo, tentando desarmar o interlocutor, perguntara, em razão da crítica aos servidores estatais, quantas vezes por semana o médico aparecia no plantão do hospital público em que tinha matrícula, mas fora interrompido aos indignados gritos de É diferente, é diferente!
Jamais pensou que se calaria de novo, como havia feito adolescente, jovem e no início da vida adulta, por sobrevivência, por medo, para não ter, apesar de suas posições ideológicas relativamente moderadas, o mesmo fim de conhecidos de infância, vizinhos do bairro, colegas de faculdade, as manchas torturadas dos governos a que o médico fazia apologia. Novamente emudecera naquele momento, embora com os olhos chispando de indignação a revelarem os seus transparentes pensamentos, outra vez por temer que suas opiniões pusessem em risco alguma integridade física, dessa vez numa circunstância invulgar. A mãe, gentil, voltara os olhos a ele ternamente, solicitando com esse olhar que evitasse o conflito naquele instante, priorizando a sua cirurgia. Maria Clarice comunicava-se com o filho com insuspeitos gestos que, somente na cumplicidade de ambos, diziam tudo.
Ele saiu do hospital durante o procedimento cirúrgico para uma caminhada, calculando mentalmente o tempo que duraria a operação no intuito de retornar antes do seu fim, o que deveria se dar por volta das 18 horas. Não havia ido longe e, quando voltava, foi atraído ao parque de diversões antigo que ficava perto do hospital, do outro lado da rua sob o viaduto. Outros aniversários teria ele passado com a mãe (e o pai, e avós, e tanta gente que partiu) em espaços de entretenimento semelhantes. Muitas fotografias comprovariam isso, se soubesse onde encontrá-las. O parque estava fechado naquele horário, mas o gradeado baixo convidava que se entrasse sem dificuldade e ele não resistiu. O espaço lúdico e vazio o permitiu refletir sozinho, ainda consumido pelo silêncio a que se obrigou, embora o choro de alívio somente haveria de ser liberado diante do carrossel reverso com sua música de acordeom. Qual a pertinência da ameaça que ouvira? Será a abertura democrática um constante jogo de forças? O que agora se mostrava consolidado teria apoio popular em algum futuro para ser novamente destituído? Onde podem estar hibernando desde já essas ideias?
Logo surgirá a lua, entre nuvens no mata-borrão do céu, que agora exibe apenas uma única estrela fria. Por isso, ele está voltando ao hospital. Caso encontrasse o médico de novo, poderia — estrategicamente após saber sobre o sucesso do procedimento e qual vista da mãe afinal fora operada, a esquerda ou a direita — responder tudo o que lhe ficou engasgado, inclusive apontar a sua atitude antiética ao usar o chão do hospital para proselitismos e, quem sabe, expor sua hipocrisia por falar sobre corrupção quando oferecera à mãe cobrar mais barato pela cirurgia se não precisasse documentar o pagamento. Quem sabe o chamasse de viúvo da ditadura? Era uma boa ofensa, curta na medida para quem não estava disposto a ouvir argumentos elaborados. Como fosse, ele gostaria de finalmente contrapor, já que, caso se concretizassem todas aquelas intimidações, calar seria o que restaria e chorar poderia voltar a ser ainda muitas vezes opção a falar.
O rapaz apressa os passos de retorno porque já caía a tarde. E, enquanto se afasta da entrada do parque, ouve recomeçar a música de realejo de tirar sorte. Já longe, não verifica para qual sentido gira então novamente o mecanismo do carrossel.



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