Encontrar
- Contos Conjugados
- 8 de fev. de 2023
- 7 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
“RAVISSEMENT. Épisode réputé initial (mais il peut être reconstruit après coup) au cours duquel le sujet amoureux se trouve ‘ravi’ (capturé et enchanté) par l'image de 1’objet aimé (nom populaire: coup de foudre; nom savant: énamoration).
[...]
RENCONTRE. La figure réfère au temps heureux qui a immédiatement suivi le premier ravissement.”
(“Fragments d’un discours amoureux”, Roland Barthes)
(Para Angela Maria da Costa e Silva Coutinho)
Corria o mês de fevereiro de 1969. Era azul o céu. Seriam dez da manhã.

A jovem subiu no ônibus e, quando ia dar ao cobrador o dinheiro, o rapaz logo atrás, com nota mais alta, antecipou-se: pague duas, por favor. Ela olhou com espanto e, embora admirando seu sorriso luminoso, apenas seguiu caminho, é verdade que sem negar o favor. Sentou-se à direita, num banco de dois lugares no meio do veículo, assento do corredor e não da janela.
A condução ainda estava no princípio do itinerário (a parada do fiscal como referência: o percurso, circular, impedia tecnicamente a definição de inícios ou términos) e, por isso, o coletivo trazia vários lugares vagos. No lado esquerdo, um pouco antes da moça, uma mulher de idade mais avançada, sentada à sua janela, saboreava devagar um saco grande de pipocas quentes e amanteigadas enquanto observava com atenção aquele movimento ligeiro dos dois pululantes jovens, discretos tão só em suas concepções. E apenas bem mais à frente se desencontravam outras pessoas, alheias a quaisquer narrativas. O rapaz se aproximou e pediu que a menina concedesse passagem para o lugar mais interno. Ela não moveu as pernas e, desafiadora, sem dizer palavra, apontou num movimento semicircular com o queixo as possibilidades ao redor. Ele, como se outras escolhas não fossem o seu destino, optou por permanecer de pé, dois passos à frente, ainda próximo a ela, uma vez ou outra vez a se fixar em seus olhos, sempre sorrindo.
A senhora das pipocas compreendia e acompanhava tudo com a experiência de quem efetivamente sabia o desfecho, com todas as suas consequências, daquele espetáculo da natureza humana, encontro de pássaros primaveris. O semblante cúmplice que a mulher oferecia à menina era recebido de bom grado porque, de certa maneira, hipotecava segurança à jovem — dado algum motivo, a moça percebia-se menos vigiada do que sob uma vigília carinhosa. Em certo momento, porém, no gradual preenchimento dos espaços desocupados do ônibus, outro senhor tomou o lugar vizinho à espectadora. Essa contrariedade limitava um pouco o contato visual entra as duas, sem no entanto o impedir por completo. Não devendo assistir à cena com a mesma constância, a mulher passou a intercalar os lances enamorados do casal com a visão da janela à esquerda, onde via passar vagarosa uma cidade quieta, ainda úmida sob o céu nublado do fim da tarde, embora sem mais ameaças de tempestades catastróficas.
O ônibus foi recebendo mais e mais passageiros e, quando afinal o assento ao lado da jovem era o último restante, o rapaz que lhe pagara a tarifa pediu de novo com cortesia que o deixasse passar e ela não encontrou mais como impor recusa, a alegação de antes perdera efeito. Com ar vencedor, ele se sentou ainda mais garboso. Então, girou um pouco, quase nada, o corpo para ela e, como quem tivesse uma ciência imprevista oculta em cartola mágica, e para talvez desfazer a ideia de que agisse assim usualmente com todas as garotas como numa estratégia padrão de enamoramentos, contou que a conhecia do instituto de normalistas em que ela estudava, informação que — no falhanço da magia — não trazia o efeito de surpresa desejado, o uniforme da menina já o denunciava.
A moça então conduziu com descrição o olhar ao lado oposto do ônibus, procurando outra vez a segurança da mulher que comia pipocas. Mas na fração menos iluminada do veículo, a fisionomia confiante e sábia, que ainda buscava observar os jovens, parecia desarmada e confusa — distraída por algo inusitado. Não podia a normalista entender o motivo, por não ter escutado a intervenção inesperada do homem ao lado da mulher. Supostamente encabulado e como se o fizesse para puxar assunto, ele alegou estar com fome e lhe perguntou se iria comer toda aquela pipoca: não pude almoçar hoje e o cheiro está muito bom, é irresistível pedir, explicou de uma forma que provocava alguma simpatia pelo singular despacho de espírito em fazer a petição e não uma inapropriada comiseração: era afinal certo de que não o fazia por necessidade (estava bem alinhado, como quem vem de um ambiente de trabalho que requer elegância) e sim por falta de planejamento, algum mau cálculo que lhe fizera escolher entre tomar o ônibus no horário correto ou se alimentar. A mulher considerou, numa leitura ainda superficial, porque estava atenta à história da jovem, que era uma grande audácia do homem desconhecido, mas disse não ter mais fome e lhe remeteu o pacote para ela já metade vazio (para ele ainda metade cheio, tudo depende da fome), espichando novamente os olhos e os ouvidos aos acontecimentos da fila oposta de assentos, de onde, no entanto, parecia agora estar um pouco mais distante.
Estudo em uma escola de meninas, disse a jovem, não pode você estudar ali, concluiu, esperando assim o flagrar em mentira. E ele respondeu que frequentava o lugar com alguma assiduidade porque era filho da diretora e estaria sempre por lá à sua procura. Ela não se lembrava de a professora por quem nutria admiração já ter mencionado família, parecia até muito nova para ser mãe de um garotão daquela idade; supôs que fosse uma continuação do logro inicial, alguma tentativa astuta mas improvisada de sustentar o blefe (descobriria só mais tarde que não), mantendo-se, porém, curiosa quanto à abordagem. A luz do sol alto da manhã que batia na janela do ônibus era filtrada pelo vidro e iluminava a pele do rapaz, tornando ainda mais atraente aos seus olhos a figura quase imóvel, contrastando com um cenário externo urbano que se perdia em um fundo de construções a se confundirem sob a alta velocidade do ônibus. Conversavam os dois jovens sobre o futuro, as perspectivas das funções que se preparavam para exercer na sociedade, as expectativas sobre o mundo que os abrigaria ou repudiaria em suas empreitadas. Preferências político-ideológicas, assunto deveras delicado nessa época para ser tratado francamente com desconhecidos, iam se desenhando nas entrelinhas das conversas, nos subterfúgios das linguagens, felizmente encontrando, porque de modo algum era item desprezível, convergências animadoras. Distraída do universo ao seu redor, de repente, a jovem lembrou-se da senhora do outro lado do ônibus. Procurou-a para saber se encontraria uma audiência aprovadora da sua condução do caso. Mas a descobriu em uma conversa então mais imbuída com seu vizinho de assento.
Comentavam os dois adultos mais velhos também sobre seus planos para novos futuros. Ambos estavam em vias de aposentadoria após longas trajetórias. Ele era divorciado e ela viúva. Os respectivos filhos estavam bem criados. Não tinha ideia a mulher do instante preciso em que havia sido capturada por aquela conversa na qual dados burocráticos como estados civis revelavam na verdade questões tão pessoais. Lembrava vagamente do assunto ter surgido a partir do olhar do homem aos seus dedos, sem ela saber ao certo se ele contemplava a beleza de suas mãos, graciosas e diligentes, ou lhe investigava a presença de uma aliança anelar que já não existia há muito tempo. Tantos e tantos anos após a viuvez, estaria ela ainda com idade para esses jogos de sedução? A perda que a abalou em passado longínquo, cujos espaços foram ocupados por incansáveis dedicações maternas e profissionais celebradas por todos os seus familiares e colegas de magistério, estaria ainda no tempo de ser retomada por alternativas que agora a assaltavam sob espanto? Teria a disposição de se submeter outra vez a contingências, incidentes, entraves, ninharias, mesquinharias, futilidades, rugas que acompanham o anverso das felicidades da existência amorosa? Ele retirou do bolso o aparelho de telefone celular e solicitou o seu número pessoal: é porque faço questão de lhe retribuir a pipoca, explicou com a voz cheia de encantos.
Ela não sabia responder. Pendeu a cabeça um pouco para o lado para alcançar o casal de jovens cerca de cinco décadas distantes. Riam com graça, movendo os corpos com elasticidade, o que os enlevava, mas era para eles nada além do que os movimentos naturais de todo dia. Captava tudo o que era dito mesmo sem poder ouvir nada à tamanha distância. O rapaz também pediu que a moça fornecesse o número do telefone de sua residência. Ela alegou que não era adequado, o pai poderia estar em casa e vir a atender a chamada e esse era um risco desnecessário e talvez fosse mais conveniente ela ficar com um contato para fazer ligação quando possível e se possível, o que, por consequência, concederia a ela o absoluto poder de, com todo o tempo a seu favor, decidir se permitiria a continuidade do flerte. Estaria nas suas mãos, aplicadas e elegantes, perpetuar aquela história, transformar ou não aquele dia em algo decisivo naquelas trajetórias de vida.
A mulher, por sua vez, voltou a conceder atenção ao seu par. Na falta de resposta ao pedido, ele havia adiado o registro do número de telefone e o aparelho passou a lhe circular como distração de uma mão para a outra enquanto falavam. Conversavam sobre interesses em comum, impressões de espetáculos teatrais análises sobre o panorama político mais recente, experiências profissionais, no que elas convergiam e diferenciavam. Ela julgou o diálogo inteligente, agradável, em verdade, já tinha se decidido sobre o contato, mesmo com a resposta não revelada ainda nem para si.
A personalidade atraente fazia com que as paradas do ônibus se tornassem quase imperceptíveis e, numa delas, o rapaz que conversava com a jovem deixara o ônibus, após da moça se despedir com trocas de beijos carinhosos nas bochechas, alguns segundos mais demorados e centímetros mais próximos do que a etiqueta usual. Quando a mulher deu por si, a normalista estava só. O homem ao seu lado, então, informou ter passado do momento de desembarcar há três pontos e não queria perder a oportunidade de retribuir a salvação do seu apetite. A mulher mirou novamente a menina (admirou-se dela), agora que estava séria, absorvida pela leitura de um livro — um livro que chamava a si mesmo de Livro e se declarava feito de Areia. Apenas após isso, respondeu: você me dá o seu número e talvez eu telefone, e como o semblante perguntasse quando, ela completou enfática, quando eu tiver fome. Satisfeitíssimo e após fornecer os dados, antecipou-se a tocar a campainha e partir.
Afinal sozinha, a mulher, do seu lugar, uma última vez, voltou-se à jovem, que fechou o livro e trocou com ela um olhar que a iluminou no outro lado de um intransponível espaço. De modo especular, sorriram uma para a outra, ao mesmo tempo.



Comentários