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Nascer

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    Contos Conjugados
  • 25 de dez. de 2022
  • 11 min de leitura

Atualizado: há 4 dias


“Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.

Dessa velha ilusão desenganemos:

É dia de Natal. Nada acontece.”

(“Natal”,

José Saramago)


A carroça passava com velocidade pela Praça da Constituição quando a roda esquerda acertou uma das pedras soltas da rua, a mais saliente delas, resultando daí sua carga catapultada para trás. Fosse, contudo, pela escuridão da noite alta mal vencida pelos candeeiros da iluminação pública, fosse pela pressa natural de quem carecia de se livrar logo da tarefa inesperada para ainda retornar a tempo de saborear a dobradinha natalina que não era muita, fosse pelo estado de distraída estupefação dada a fatalidade que surpreendera a vizinhança logo em data tão festiva, os dois homens sobre o veículo seguiram o percurso sem atinar para a carroceria vazia. Apenas depois de cruzar a cidade até, por fim, chegar à praia de Santa Luzia e puxar o bridão do cavalo em frente ao Hospital da Misericórdia, deram falta do corpo.

O homem mais velho, pragmático, buscou reconstruir mentalmente o caminho e as ações desde que colocaram na carroça o vizinho fulminantemente vitimado talvez por alguma apoplexia aguda, mas não foi capaz de lembrar nada que viesse a justificar o desaparecimento, o breve episódio na Constituição acima aludido não se fixara em sua memória. Porém, o outro, bem mais moço e cuja natureza pendia a superstições, intuiu um “Milagre de Natal”, capaz que voltassem para casa e por lá encontrassem o vizinho vivo, era possível, não? O primeiro coçou a cabeça e algum senso de responsabilidade queimou os dedos que lhe tocavam a própria testa, mas, com o citado espírito prático, logo concluiu: a partir da ausência do morto, caberia retornar aos seus lares, antes que até a tigela de compota estivesse vazia.

E o destino daquele corpo deveria melhor do que ser enterrado nas covas rasas do Cemitério da Misericórdia, de onde braços e mãos saíam da terra a cada nova tempestade a lhe revolver, como se os defuntos quisessem escapar daquela desgraça em morte maior do que em vida, mesma terra para que depois eram enviados de volta à custa de muitas pancadas de troncos de árvores também semelhantes em intensidade às experimentadas outrora, tudo isso enquanto os abastados aproveitavam confortos de aposentos no chão do altar ou nas paredes das igrejas. Essa análise do homem mais velho nada justificava, enquanto as explicações do rapaz que o acompanhava, mesmo absurdamente mágicas, entregavam solução que seu olhar realista do mundo não alcançava, podendo assim se tornar convenientes, conforme ele refletia embora guardando cautelas.

E o enredo do moço se dotou de credibilidade — se não tanto, digamos que ganhou um efeito cênico — quando surgiu no céu límpido da noite a repentina e cintilante Estrela de Natal, a ofuscar a lua, pálida e melancólica. Da beira da praia, o homem mais novo observou o fenômeno por alguns minutos antes de, aquiescendo voltar às bandas de Mataporcos, entrar novamente na carroça, ao tempo em que o mais velho, com certo espanto pelo exagero da reação, jurava que via, mesmo no breu, lágrimas marcarem o seu rosto. Já sentado ao veículo, o rapaz discursava que, se o vizinho afinal não havia acordado e se precipitado de volta ao seu rés-do-chão — o outro, com alguma ironia não necessariamente percebida, argumentava que ressurreições eram milagres pascoais e não natalinos — só podia mesmo ter se transformado naquela estrela que agora cortava a abóbada, vagando corporeamente ao Paraíso sem necessidade de campos santos.

Sempre mais objetivo, o homem com a rédea às mãos voltou nova atenção para a luz distante e presumiu se tratar de um cometa, mas o jovem tagarelava que era mesmo um 25 de dezembro único esse em que reaparecia ali, como na Belém oriental há 1844 anos, a Estrela de Natal que anunciara o nascimento do Cristo, só podia significar que seria o presente e o futuro um tempo especialíssimo para os habitantes da cidade e, dali por diante, além de a vida de todos decerto se desenvolver com menos miséria, os mortos da nova terra escolhida por Deus talvez não precisassem mais se ocupar de serem sepultados em cemitérios ou até clandestinamente em praias porque, como o seu vizinho, o primeiro de todos, viajarão ao Éden com corpo e alma fundidos num só brilho no céu. E por que logo ele, tão invisível a todos, fora eleito o precursor desse bem-aventurado caminho?, perguntou o outro, mas apenas a si mesmo, para não ferir sensibilidades — não gostaria de obter a resposta de que não cabe julgar o morto pelas sua personalidade de vivo, pois certamente ninguém vive a experiência da morte sem transformações, ou outra réplica dessa qualidade.

Julgando o rapazola no limite de alguma heresia impensada, o homem mais velho, já enfastiado mas sem intuir decifração para o extravio do corpo a qual aquietasse as perguntas que os outros moradores do arraial fariam (menos por apreço ao vizinho pouco carismático do que por gratuita curiosidade pela morbidez), enfatizou ainda para si o quanto era mais oportuno abraçar aquela patuscada toda, embora improvável. Fez por isso um sinal com os dedos, em agradecimento, na direção do cometa ou da estrela ou do que lá fosse aquela providencial luz cósmica — se ela não carregava consigo responsabilidade no ocorrido, fornecia-lhe desculpa persuasiva aos mais crentes, não poucos: fantasiosa, é certo, mas positivamente satisfatória.

Seguindo o rastro do mesmo brilho etéreo cortando o céu, os três mancebos que desciam a pé a Rua do Espírito Santo chegavam ao Largo da Constituição naquele exato segundo. Planejaram por toda a tarde que iriam à Missa do Galo, como dizia a pilhéria, menos para rezar pelo menino do que para ver rezar as meninas, mas se embriagaram a tal ponto que não tinham condições de entrar em uma igreja — havia, ao menos, restado-lhes a consciência — porque não podiam com alguma decência forjar devoções naquele estado. Resolveram então caminhar para curar os efeitos do álcool, antes de se dirigirem para os hotéis que ofereciam bailes com serrabulhos e licores após o evento eclesiástico e em que seguramente encontrariam também as já então impacientes “casadeiras”, como a chamavam entre si, a lamentarem as prometidas mas frustradas presenças dos rapagões na cerimônia santa.

Em razão de andarem com os olhos voltados para a encantadora estrela (e não, é claro, por estarem bêbados) é que tropeçaram no homem que estava deitado na beira da praça, em frente ao antigo solar meio abandonado do Visconde do Rio Seco. Um deles chegou a cair sobre o lixo amontoado mais à frente, logo se levantando num pulo meio acrobático e quase equilibrado, a demonstrar com orgulho que a habilidade ainda vencia a embriaguez. O que jazia no chão estava em condições deveras pior — bebera mais do que os três juntos, especularam eles, porque com todo o súbito alvoroço não havia acordado de seu torpor nem para resmungo. Os homens olharam ao redor, preocupados, cada um para um lado e em movimentos irregulares. Mesmo sendo tempo das Festas e, por isso, presumível que se possa ignorar o toque do Aragão que obriga recolhimento às dez da noite, estar parado na rua a tais deshoras, em especial dormindo, sobretudo quando tão próximo à cavalaria, resulta em ir parar com os ossos na cadeia sem apelação não só por se achar em desordem e embriaguez, mas também por vadiagem.

Olharam o homem com atenção. Não o conheciam, os trajes aliás evidenciavam o seu não pertencimento ao mesmo estrato social dos três principezinhos e era natural que a relativamente pequena cidade na qual todos se cruzam não tenha, em contrapartida, vinculado seus caminhos para além dessa coincidência espacial que, por vezes, parece quase absurda consequência das organizações urbanas contemporâneas. Mas os três sentiram que era preciso ajudá-lo. Poderiam estar movidos por um sentimento natalino que os ingleses andavam aprendendo com Charles Dickens e seu A Christmas Carol, a tentar espalhar valores de generosidade nas classes privilegiadas ou a fazer as menos favorecidas nela acreditar — poderiam, caso tivessem lido. Ou na verdade se imbuíssem de uma solidariedade alcoólica no fundo a fazer de todos aqueles que muito bebem membros de uma hospitaleira confraria do vinho. Lá se expliquem como bem se entender as procedências ou os motores do ato, apenas se pode narrar com lealdade os acontecimentos e deu-se de simpatizarem com o homem e tomarem iniciativas de o auxiliar a escapar de um flagrante da guarda municipal.

Era preciso, no entanto, tornar crível que o pobre estivesse circulando com o trio, por isso, o primeiro cedeu-lhe a cartola negra, o segundo presenteou-o com o lenço encarnado e, por fim, o terceiro ofereceu suas luvas brancas. Não combinavam com o colarinho sebento e o colete puído do bêbado caído perto da sarjeta, mas no escuro nem um eventual intendente a lhes cruzar a passagem perceberia tais incompatibilidades. Os dois mais corpulentos ergueram-no então, cada um por um dos braços que passaram por trás dos respectivos pescoços, a mão direita de um firmando pelo pulso direito, o outro reproduzindo a ação de modo especular, somente a trocar nesse caso direitos por esquerdos, de maneira que parecia que o recém-conhecido caminhava com eles, entre os dois, abraçando-os fraternalmente, apesar dos pés que seguiram se arrastando. E assim partiram os quatro pela Rua do Conde, andando no meio da via já que não se contava com passeio naquelas bandas, três deles cantando com alguma troça os hinos da época, intercalando-os com os gritos de “Festas! Festas! Festas!”.

É de se compreender: parece inverossímil o fato de, com o rosto defunto tão próximo aos seus, os dois homens não constatarem a verdadeira circunstância que o infeliz vivia (com o perdão da infâmia). Mas há-de se entender: tamanha quantidade de álcool que os embebia é suficiente para esterilizar o bafo da morte antes que lhes possa alcançar a ciência. Além disso, disfarça também algum odor funéreo o cheiro forte de peixe que comumente inunda o Rio de Janeiro à noite, fruto do óleo de azeite animal que queima nos candeeiros bruxuleantes mas pouco efetivos, muito mais a feder do que a iluminar. Daí ignorarem ser definitivo o desmaio do homem e seguirem satisfeitos por acudir quem julgavam vítima dos prazeres do vinho.

A solução, entretanto, era paliativa. Não podiam perder a noite de Natal a carregarem o peso, mesmo que não fosse tanto, até curar sua inconsciência bacante. Era necessário dar a ele um destino que o mantivesse protegido de confusões até amanhecer. Foi quando tomaram a Rua do Núncio em direção à do Hospício que um deles, precisamente o que não se ocupava do trabalho físico, teve dessas ideias que, quando nascem em momento de sobriedade, falta a medida exata de coragem para a executar. Naquela condição, porém, ele não apenas a comunicou como recebeu a efusiva aprovação dos companheiros, cujos bons sensos, se existiam, encontravam-se também obliterados. Por isso, sempre com a crença de que seguiam a Estrela de Natal ou, como já era crível devanear, eram seguidos por ela, mais à frente dobraram a Rua dos Ciganos, em busca do número 40, onde se localizava o armazém do Barros.

Conforme previram, encontraram a oficina fechada e era bastante provável que o Barros, devoto fervoroso, estivesse com a família na Missa do Galo da Capelinha da Matacavalos. Na rua, não viam ou ouviam viv’alma. Assim, com destreza e força que somente a juventude é capaz de conceder a alguém tão embriagado, o que teve a ideia a pôs em prática, forçando e arrombando a porta do estabelecimento comercial com silenciosa agilidade, e dessa maneira entraram todos os quatro no lugar. A escuridão inicial os impedia de enxergar qualquer coisa, mas os olhos foram se habituando (exceto os que nada mais veriam) e o lugar tomou forma pouco a pouco. Quando isso foi suficiente para se distinguirem velas fincadas em bonitos castiçais, deixaram o novo companheiro no chão e escapuliram para as acender num dos mais baixos candeeiros fétidos da rua. Retornaram um por vez e cada gradativo foco de luz surgindo à porta legava uma nova dimensão ao que estava armado no interior da loja. Mais ao fundo, ocupando espaço que no restante do calendário é dedicado aos ofícios comerciais, estava o imenso presepe que, por vezes sob o canto em coro de suas próprias filhas, o comerciante-artista oferece à apreciação pública todo ano há mais de uma década, dizem que por cumprimento de promessa, franqueando-o a visitas até meados de janeiro sem outra recompensa do que o respeito ao mais importante fato da crença religiosa, segundo faz publicar e conforme será lembrado por muitos anos pelos mais velhos até a memória da cidade esquecer por completo.

A cena ornada com arte e engenho e peças esculpidas pelo próprio Barros não se resume à manjedoura do Menino-Deus cercado pelos Santos Pais e pelos Reis e burricos e vacas, mas traz ampla montagem em anfiteatro a remeter à antiga cidade natal do Cristo aos moldes porém das mais modernas urbs do atual século, com torres suntuosas, monumentos neoclássicos, igrejas belíssimas com sinos imponentes e casas, tanto as simples choupanas quanto os vistosos palácios, sempre aconchegantes, todas com gradeados ao redor e vidros nas janelas. Nas limpas ruas iluminadas por modernos lampiões a gás, habitantes de toda classe, trajados à moda do Minho, vagam pelo calçamento, de almocreves e saloios a duques e barões, a dançarem felizes uns com os outros uma canção que se pode supor alegre, tudo em meio a cães e gatos e coelhos delicados e até leões majestosos mas mansos, além dos camelos e dos Magos, trio formado pelas mais ricamente vestidas personagens do espetáculo. E espalham-se flores também pelas esquinas e morros, miríade de flores coloridas e certamente cheirosas. Pendurados ao alto, muitos rechonchudos anjinhos de barriga para baixo voam e admiram o cenário de paz e comunhão. Ao fundo, as montanhas de bosques verdíssimos, em que circulam pastores com seus rebanhos e ao pé das quais um chafariz jorra água para formar um lago com peixinhos vermelhos, separam o sol e a lua que coabitam o horizonte, enquanto entre esses dois astros, mais ao alto do maior pico montanhês, o poético quadro é iluminado por enorme e reluzente Estrela-Guia muito dourada a multiplicar as luzes das velas dos invasores, astro que figura como o único elemento que, assim mesmo somente naquelas recentes horas, encontrava par na cidade real, a mesma cidade vazia e silenciosa que por alguns minutos os três bêbados esqueceram existir.

O líder do grupo (já o poderíamos chamar assim) advertiu de que não deviam se demorar naquele prazer sacrossanto a lhes embebedar pelos olhos tanto quanto o vinho pela boca. Antes de escapulir, no entanto, num último rompante de magnanimidade natalina, ele ponderou que o chão duro não era o lugar mais adequado para abandonar o homem, porque, embora o álcool provavelmente tornasse tudo indolor, o corpo protestaria com veemência nos próximos dias por se submeter a tamanho desconforto. Arrastaram-no então até a lapinha com chão repleto de palha onde estava o recém-nascido divinal, tiraram a imagem do bebê da manjedoura, pousaram ali no delicado e simplório berço a cabeça do homem e depois aconchegaram o pequeno infante no abrigo dos seus braços cruzados sobre o peito. Um deles por fim pegou de volta a sua cartola, o propósito do empréstimo estava cumprido, mas o lenço e as luvas seguiram com ele, não tanto por esquecimento mas em especial pela graça de imaginar o susto do indivíduo ao acordar e se ver portador das peças finas. Após isso, os dois mais afoitos apagaram suas velas e largaram os castiçais em qualquer canto para evadirem e ganharem a rua e ainda viram o fenômeno da Estrela de Natal, já sem a mesma força entretanto. Deviam correr, a fim de não se atrasarem para os bailes, de forma que se impacientaram pela demora do outro.

Ocorre que o mais diligente do trio se deteve uns instantes além. Seria realmente de mais prudência que apagasse a vela como os amigos procederam, visto que a luz chamaria a atenção da família do Barros em seu retorno — garantidamente não tardaria, até (desejemos que não) acompanhada de alguns visitantes — quando o ideal é que o desacordado ficasse ali escondido das vistas de todos até o amanhecer e pudesse sumir antes de ser encontrado. O proprietário era tido como homem generoso e talvez não fizesse queixa apesar do arrombamento, porque nada fora furtado, mas imagine o susto caso a descoberta coubesse a uma das suas mimosas filhinhas... Esse pensamento não bastou para o impedir de alocar o castiçal com a vela ainda acesa próximo ao homem. Tomado de repente por uma tristeza, uma gravidade, um imprevisto sentimento respeitoso cuja origem desconhecia, jamais entendeu se assim agira por força ainda dos efeitos inconsequentes do álcool ou, pelo contrário, um facho de lucidez que rompera a sua ebriedade afinal um pouco débil.

Antes de sair, já no umbral do armazém, virou-se uma vez mais e considerou, a partir de cálculos mentais sem nenhuma base lógica, que o homem certamente despertaria no meio da madrugada e fugiria sem ser visto e, portanto, como é adequado a qualquer Natal, as engrenagens se encaixariam e cada elemento, por milagre talvez, findaria a ser deslocado ao seu devido e feliz lugar. De toda forma, caso surpreendido ainda dormindo, a imagem do homem que teria entrado no espaço teatralizado do histórico nascimento divino para abrigar com carinho em seus braços o Deus-Menino estava eivada de uma inocência que deveria lhe tornar imputável. Olhou a cena uma última vez: para ele, o lume da vela refletia bem o contraste entre um sono tão profundo quanto a morte e a perfeição do corpinho vivo do rebento dormitando em seu colo. E concluiu que nunca um presepe figurou com tal rigor o Natal do Rio de Janeiro desses dias modernos.

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Todos esses Contos Conjugados são narrativas de ficção, o que não impede que neles o leitor possa encontrar as suas verdades

(ou as suas genuínas mentiras).

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