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Purgar

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    Contos Conjugados
  • 26 de abr. de 2024
  • 14 min de leitura

Atualizado: há 7 horas


Ilustração de 1885 de Gustave Doré para o Canto XVIII do Purgatório d'A Divina Comédia, de Dante Alighieri
Ilustração de 1885 de Gustave Doré para o Canto XVIII do Purgatório d'A Divina Comédia, de Dante Alighieri

“Tu se’ omai al purgatorio giunto:”

D. Alighieri

 

José Brito tinha um defeito grave, não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade.

Essa primeira frase do conto não era a primeira frase do conto. Ou não era a sua primeira primeira frase, isto é, a versão original. Ocorre que, inicialmente, a intenção era a de que a personagem chamasse Dante, escolha de intenção irônica, dado o sentido da sentença, porque o nome, que vem do latim, significa permanência, constância, algo duradouro – donde a existência da palavra “durante”, de mesma raiz etimológica (puro cálculo filólogo sem fonte segura). O batismo, entretanto, contaminaria a narrativa com a a inadvertida presença do autor de La Divina Commedia; não fosse apenas uma hipótese, mais honesto seria confessar a influência direta da onipresença física sobre a escrivaninha da obra editada em italiano (recente aquisição). A persona da história, contudo, nenhuma semelhança guardava com o florentino renascentista e isso era inadequado ao enredo.

Por isso, tinha riscado com a pena a alcunha e grafado logo acima: Pedro, cujas origens, tanto a latina quanto a grega, remetem a pedra ou rocha, munindo a criação do mesmo desejado (e ainda irônico) valor de estabilidade, algo duradouro, predicado que decididamente os ofícios efêmeros do protagonista não alcançavam. Porém, agora, a aproximação com o Imperador é que parecia inevitável e não se permitiria o descuido de aproximá-Lo a figura ficcional tão repleta de defeitos. Era previdente evitar problemas com S.M., mais ainda porque escrevia a narrativa para o Jornal das Famílias, público em sua maioria conservador e inclinações monarquistas, nada afeito a ideias republicanas que apenas com timidez se faziam ouvir ali ou cá, em um ou outro canto dos anos 60. Além disso, seria comprar briga com nota promissória sem o devido crédito: a personagem José Brito (antes Dante e até então Pedro) também não podia estar mais distante de D. Pedro II, nos mais diversos aspectos, das posturas diante da vida à condição social que lhe era imposta.

Prosseguindo a busca mental, sempre com o intuito de que a denominação da figura representasse o avesso de sua personalidade, o autor cogitou Perpétuo ou Constâncio, chegou a anotá-los sem convicção, mas não derrubou do trono o nome em vigor em benefício desses candidatos, não haveria neles sutileza. Até que alcançou o nome do alto da página, encabeçando a narrativa, após nova rasura, a qual seria a penúltima: pois tudo o que se conta aqui é a história da rasura derradeira.

A escolha por Brito mostrava-se mais pertinente do que Pedro porque o novo nome também significava pedra, mas não uma ostensiva rocha volumosa, antes uma pedrinha menor, ainda resistente, é verdade, mas sem configurar um obstáculo, exceto aos descalços. Era, pois, uma efetiva pedra no meio do caminho (expressão comezinha), podemos dizer que nel mezzo del cammin di nostra vita, para resgatar o verso inicial da commedia divina e desfazer a má impressão de haver no início invocado e pronunciado em vão a Obra, em suma, uma pedrita que poderia tão somente magoar o pé, sem envergadura para interromper o percurso. Ou seja, mais do que oposição franca à sua característica inconstante, a alternativa trazia uma ambiguidade ao homem inventado, uma ilusão para o leitor se assim quisermos, enriquecendo o simbolismo do apelido. O escritor gostou disso finalmente: releu e contemplou o nome e viu que era bom. Como precaução última, acrescentou um José à frente, para evitar comparações com o seu falecido amigo Francisco de Paula Brito, sempre tão diligente por toda a vida.

Tratava-se de cuidados em que talvez apenas ele reparasse, longas reflexões batismais faziam-no desperdiçar os dias e atrasar a entrega do texto e adiar seu pagamento pelo jornal do Garnier, luxo de que não podia gozar nesses dias. A condição financeira não era nada confortável, como a propósito nunca fora. Devia empréstimos a alguns amigos, sobretudo a Ramos Paz. Há muito que pulava de pensão em pensão, sempre que os aluguéis rasgavam-lhe a fazenda dos bolsos, daí tivesse estabelecido agora como teto o imóvel comercial com sala e quarto da Rua da Alfândega, no sobrado acima da loja de uma alfaiataria ou armarinho, nunca entendera ao certo a natureza exata do comércio vizinho logo abaixo. E mesmo essa morada seria decerto provisória, caso não fosse capaz de fazer dinheiro, os salgados 35$ poderiam ser justos para um imóvel mobiliado, mas pesavam. De maneira que o excesso de zelo fabulesco, as boas intenções estéticas não devessem ter espaço em sua literatura, não em momento tão agudo. Precisava contornar, não quaisquer, mas a maioria das tentações artísticas, mesmo a contragosto.

José Brito tinha um defeito grave – releu o escritor – não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade – e, retomando a pena entre os dedos, continuou – é o que esse homem chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para uma alfaiataria – o autor pensou na imprecisão do comércio logo abaixo de seus pés, na sobreloja, e preferiu fazer a troca – entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos – e, tendo a tinta secado, deixou descansar o braço direito e, com a mão esquerda, tirou o pincenê para o pousar sobre o papel enquanto massageava a parte alta do nariz, entre as sobrancelhas.

Reposicionando os óculos, reviu o parágrafo e surpreendeu-se: ora, José Brito, que nada trazia de Dante Alighieri, Pedro de Alcântara ou Paula Brito, de repente, refletia justamente ele próprio, pelo menos no contraste entre a falta de dinheiro e a altivez. Não! Que bobagem! O orgulho de JB nada mais era do que empáfia sem razão. Ele, por outro lado, passara os últimos anos difundindo uma imagem positiva sua junto à sociedade e, agora, à família portuguesa de Carolina. É antes de tudo amigo do poeta Faustino de longa data, mas ainda conhecerá os demais irmãos da moça, parece que estão a caminho do Brasil, não obteve informações mais precisas. De qualquer forma, é preciso mostrar-se alguém de que a noiva deveria tirar todo e qualquer bom partido, apesar do que a priori, por suposição, viesse a desagradar seus parentes (não é tolo, pode imaginar). Trabalhava diuturnamente, muitas vezes até horas mortas, e, sem pegar atalhos indolentes, empreendia mínima ascensão social, um bocado além do estado de não passar fome. É antípoda de José Brito. E o objetivo pedagógico da personagem era exatamente demonstrar as consequências funestas da má escolha de Augusta, a trágica heroína desse conto na qual as leitoras se espelhariam, ao contrair matrimônio com tipo como aquele, amigo íntimo em demasia de patuscadas, a quem por desgraça a mocinha unira-se (entendimento em oposição ao que espera que Carolina e os irmãos tenham de si).

A história, jamais poderia explicar por quê, após semanas empacada, desabara quase completa em sua cabeça mais cedo naquela mesma noite, em que Sarmiento, o novíssimo Presidente da Argentina, esteve no Club Fluminense a tomar chá e trincar torradas. O poeta (na época, era mais conhecido por versos e dramaturgias do que escritos em prosa) fora jogar xadrez com o Professor Palhares. Depois, no salão, observava cavalheiros e damas dançarem no salão, dentre os jovens uma indubitável Augusta (não tinha esse nome, é evidente, mas era toda ela, un ange, une jeune a quem só faltava ser espanhola e não gozar daqueles excessos de saúde para ser um dos fantasmas hugoanos). E, superando tudo isso, a inesperada presença do argentino: boas carnes, olhos vivos e grandes, de casaca, gravata branca e cara rapada, a exibir a áurea de quem acabara de ser eleito o representante máximo da República do seu país e parecia estar na Capital do Brasil Imperial para fazer nascerem ciúmes nos raros espíritos locais que cultivavam ideais republicanos, ocultando-os pelos citados cantos dos anos 1860.

Após às dez e trinta, cruzando sozinho a Praça da Constituição numa noite antes fresca do que fria, o autor vislumbrava consigo todo o enredo do conto que escreveria, a fluir forte nele como um rio sem muitas pedras: o consórcio de Augusta com José Brito, as dificuldades econômicas, a irresponsabilidade do homem que se recusa a fixar emprego, os conselhos contra aumentos da família (poderiam advir de uma tia da moça), a gravidez indesejada e até condenada pela mesma parente mas recebida com despreocupação pelo jovem casal, o agravamento da crise financeira no decorrer da gestação e, por fim, o nascimento da criança que haveria de ser entregue à Roda dos Enjeitados por sugestão irreprimível da tia, cruel conselheira. Não pensava que algo pudesse evitar o fechamento das cortinas sob esse final sofocliano, nem o podia, ou a história perderia o empenho exemplar que o Jornal das Famílias exigia, ainda que o teor demasiado forte ferisse sensibilidades. Entretanto, passos já avançados pela Rua do Teatro, deixou-se levar por curiosidade, não discernia o elemento da noite no Club Fluminense motivador da elaboração de tudo que estivera tanto tempo represado em si: a materialização da jovem Augusta no baile ou a figura do novo Presidente argentino na humilde posição de tomar chá e trincar torradas?

De repente, intuía-o: era possível disfarçar seu republicanismo na fábula romanesca, como ocultos estavam nesses cantos sombreados do final da década de 1860. Na saída da Ouvidor, o escritor ponderou que, se criasse um elemento impositor ao casamento, um motivo que tornasse o esposo uma escolha que independesse da vontade da menina, José Brito representaria o governante à revelia que Augusta (imatura como a nação) teria em sua vida, circunstância cujo resultado terrível, a perda do filho (isto é, a futura geração, entregue aos cuidados de um órgão fomentado pelo Império como paliativo para suas inerentes incompetências), poderia ter sido evitado caso a ela permitissem eleger seu esposo. Carecia, pois, de buscar ensejo que conduzisse também a tal conclusão, a de que uma liberdade de escolha pessoal levaria sua vida a um termo mais feliz; para tanto, servia uma paixão anterior que tivesse se tornado excelente marido de outra jovem qualquer, alguma que antes ela julgasse invejá-la pelo namoro com José Brito, a própria tia poderia trazer notícias a respeito...

Mas, quando entrou na Rua da Alfândega, o confuso projeto parecia ter seguido em frente pela Vala, porque lhe escapou por completo, como se os encaixes tão perfeitos fossem agora impossíveis e até tolos. Não era incomum, deve aliás suceder a todo artista. Dado o tema espinhoso, pensou logo, fora conveniente para o manter longe de encrencas. Resgatou o pragmatismo, lembrando-se das dívidas e visualizando Carolina, que lhe parecia às vezes tão inalcançável, tão intocável, tão incorpórea como a própria Beatriz, e tudo o que menos desejava era fazer de Carolina uma Beatriz para si, menos ainda por motivos pecuniários. Com essa motivação suplementar, adentrou a abertura independente que ficava ao lado esquerdo da porta larga do armarinho/alfaiataria (àquela altura, já cerrada há horas), subiu as escadas pulando degraus e, chegando ao quarto, pendurou cartola e casaca, acendeu alguma iluminação e foi à escrivaninha, embora não o apetecesse a escrita noturna.

José Brito tinha um defeito grave, não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que esse homem chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia – foi como tipógrafo que iniciou seu percurso profissional, pensava enquanto relia o parágrafo – mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante – gostava por isso de pensar que, de maneira literal, vivera das letras desde o primeiro trabalho, e riu-se da própria anedota, enquanto seguia a escrita – O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa – o escritor lembrou-se então de que tivera ocupação anterior, ainda garoto vendia nas ruas e na Quinta de São Cristóvão as cocadas que a madrasta preparava para quitandar – Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho – também ele fora caixeiro e ficara no emprego por três dias somente, sendo justo, sabia que fora mal tipógrafo, abandonava o serviço para ler, ocultado atrás das máquinas – Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos –  vendedor de doces, caixeiro viajante, tipógrafo, dramaturgo, poeta, redator e jornalista do Diário, funcionário público... mas sua multiplicação de funções teria razões opostas às da sua personagem – não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo – as funções mudam e mudam e mantém-se a situação financeira parca – Ela era órfã, morava com uma tia e cosia com ela – Carolina, também já sem pai e mãe vivos, precisara deixar outros irmãos em Portugal para vir ao Brasil cuidar das doenças de Faustino – Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha – estava mais frio, ele tinha sono, mas não podia interromper-se, e a verdade é que não queria parar, alcançara o ponto em que a redação flui – O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, porém, deu sinal de si a criança – o autor escrevia pulando linhas para facilitar a revisão posterior, mas as lentes ultrapassadas do pincenê do contista não o ajudavam a diferenciar com precisão cada conjunto de palavras das faixas horizontais em branco que as intermeavam, não àquelas horas, além do que a caligrafia não era desenhada, por vezes nem legível, sobretudo em tais condições, mas não convinha parar de escrever – Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono – imaginava o artesão das letras se um dia teriam filhos, Carolina e ele, a condição financeira do nubente e a idade avançada do casal não traziam bom prognóstico, depunham contra, desincentivavam – seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe, o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos. Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno – o problema inesperado era não saber agora como encerrar a narrativa; nem conseguiu, porém, cogitar muito, em razão de um rumor abafado que se avolumava na rua e cortava o silêncio da madrugada.

O autor, que já chegava com José Brito à esquina da Rua da Guarda Velha para a entrega do bebê à Roda, lá abandonou-o com a criança, como o pai estava prestes a fazer com o filho, retornando subitamente à Alfândega. Deixou a cadeira e contemplou por um segundo as três janelas fechadas; entre a esquerda e a direita, optou por abrir a do centro. A lufada de vento frio da madrugada atingiu-lhe o rosto e fez dissipar o calor que o lume do lampião legara ao quarto nas últimas horas. Podia ser o sono, o largo tempo debruçado sobre o papel, a diferença repentina de temperatura, os esforços oculares ao ler e escrever na ausência do sol, ocorreu que sentiu tonturas e apoiou ambas as mãos na grade da pequena sacada que ornava a parte externa do sobrado. Os olhos fecharam-se no movimento, em compensação, o som que agora lhe tomava ouvidos era nítido: tratava-se de gritos, sem dúvida, gritos de dor, de protesto, de súplica. Ao levantar as pálpebras, deparou-se com a cena sob a iluminação a gás da via pública, na qual um homem arrastava uma mulher amarrada pelos pulsos.

Foi fácil compreender o que era e naturalmente não seria possível acudir: o homem corpulento era um caçador de escravos fugidos que trazia capturada o que a Lei do Império e antes da Colônia há séculos estabelecia como propriedade de alguém. Dentre os apelos da desgraçada, discerniu algumas informações: “estou grávida, senhor moço, me solte e serei tua escrava, meu senhor é mau e vai me castigar com açoites, no estado em que estou será ainda pior de sentir, com certeza mandará me dar açoites”. O mercenário limitou-se a um “siga!, quem lhe manda fazer filhos e fugir depois?”, enquanto chegava quase à altura da pequena varanda do escritor. Ela punha os pés às paredes, recuava com grande esforço, inutilmente, o homem era robusto e arrastava-a, a ela e ao filho. Quando afinal parou a pouca distância do sobrado em que o observador se encontrava, a mulher arquejava, desesperada; ele, por sua vez, nem parecia transpirar muito, mas era difícil pormenorizar daquela distância. Bateu à porta e o senhor, que estava em casa, acudiu ao chamado. Foi fácil ouvir o diálogo, os dois homens nem falavam tão baixo, como se a cena precisasse mesmo ser ouvida: “aqui está a fujona”, “é ela mesma, é Arminda!”

Assistia à cena da pequeníssima varanda como quem estivesse no balcão de um teatro. Observou o homem entregar o que julgou serem duas notas de 50$ ao caçador (100$?, 100$!, repetiu para si o escritor) e viu ainda o predador recompensado virar as costas e sair de cena, sem conhecer as consequências do desastre que comporia o fim do ato. O senhor ordenou “entra, Arminda!”, mas a mulher não se mexeu, não podia, contorcia-se deitada, mãos à barriga. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou. O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono.

O espectador estava paralisado, queria atuar no caso, mas não encontrava meios de vencer sua inação, sua negligência, sua tibieza: seu pavor. Nenhuma descrição do Inferno do ilustre florentino era assim tão verdadeiramente dantesca! De golpe, a mostrar que o espetáculo tinha plateia ampla e não apenas a si como testemunha solitária, outros olhos surgiram a saírem das casas próximas, puxando consigo seus respectivos corpos à boca da cena. Os invasores, que quebravam com esse movimento um pacto teatral, não acudiam, contudo, a mãe que perdera o filho nem o corpinho que já nascera sepultado nas pedras da Alfândega; antes, amparavam e consolavam o homem, o dono que vira sua propriedade protagonizar o espetáculo de horror. O público cercou tudo, impedindo que o escritor pudesse manter boa visão e divisasse os detalhes; como eficientes contrarregras, levaram todos os elementos do palco aos bastidores da casa do senhor. E, em poucos segundos, a rua tornava novamente à mesma de antes do drama, como se o pano da noite caísse sobre ela.

Fechada a janela, manteve-se de pé e imóvel por longos minutos no silêncio; nem mesmo a tontura, que não o abandonara, provocava movimento. Finalmente, olhou-se ao espelho que estava à parede e discerniu com atenção no fundo da superfície sua imagem no quarto cheio de sombras. Após dois passos, olhou o próprio rosto de muito perto, e assim se manteve por ainda bastante tempo. Voltou-se ao conto incontínuo sobre a mesa. Como estava, não fazia mais sentido algum. Sabia agora como o concluir. Sabia também que, se o encerrasse dessa nova forma que concebia, não o poderia tornar público, não naqueles tempos, não no Jornal das Famílias, não sendo quem era e sem se expor e colocar em perigo a ele e Carolina e o futuro... e, esgotado, sentiu ainda mais sua inoperância.

Pensou em rasgar tudo. Domou o ímpeto. Trouxe os papéis para perto do peito, depois dobrou-os e foi guardá-los, ou escondê-los, nem era a primeira vez que se via obrigado a proceder assim, guardar ou esconder os papéis entre às páginas do livro mais à mão, e aquela narrativa inconclusa abrigou-se no meio do caminho entre o Inferno e o Paraíso, junto a tutta quella turba magna che ricompie forse negligenza e indugio da voi per tepidezza in ben far messo, como não pôde deixar de ler na página. O texto quase acabado era de repente rascunho de novo, que purgando la caligine del mondo um dia retomaria. Não, talvez não: pensou dessa forma porque era mais razoável viver sem algumas esperanças, protegia-o de decepções. Arrumaria agora qualquer outra coisa para a folha do Garnier, menos elaborada ou crua e sem ferir monarquistas, necessitava ser rápido, o aluguel logo venceria, 35$ por aquele cubículo, onde estava com a cabeça?!, precisava escrever qualquer coisa.

Guardara bem escondido o conto interrompido, não sem antes observar a sequência de apelidos do protagonista no alto da página, na frase inaugural do conto, tantas escolhas de pretensão irônica, tantos dias de reflexão... E, enfim, erguida a pena do tinteiro, riscara o nome José Brito – eis a rasura definitiva – para ainda mais acima, no limite da margem superior do papel, quase a vazar a tinta à superfície da mesa nua nos resíduos das palavras, escrever, em letra menor dado o espaço exíguo mas gravada com mais força e em maiúsculas, um novo nome para o seu protagonista, e, após poucos segundos de ponderação, o sobrenome – assim ficou CÂNDIDO NEVES.

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