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Deixar Falar

Foto do escritor: Contos Conjugados
Contos Conjugados
17 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 30 de set.

Eu afinava os instrumentos da sala de música, no segundo andar, um pouco distraída, quando ouvi os sons vindos da rua, já habituais àquela altura, em todo fim de tarde, no mesmo dia da semana. Pelas frestas da janela fechada da Escola Normal, vi-os novamente: na esquina da Joaquim Palhares com a Estácio de Sá, estavam os moços da Rua Maia de Lacerda. Moços para mim. Na realidade, uns homens em torno do saudável quarto de século. Como lembro bem, nada é mais saudável do que ter um quarto de século! Até o século tem mais ou menos um quarto de século e vive o seu auge.

O grupo crescia, eram cinco ou seis agora. Vinham munidos de tamborins e violão e talvez mais algumas coisas, eu não podia distinguir tudo de uma só vez. E um elemento inédito destacava-se no conjunto: chapéu branco ... casaca também e braços para as costas ... postura meio militar ... mais alto que os outros ... sapatos lustrados ... sério, queixo quadrado ... eu compunha a imagem do jovem maneando a cabeça verticalmente para unir os fragmentos pelas frestas da veneziana, ao passo que eu mesma me ocultava. Tudo visto, afastei-me para seguir com as afinações.

Eles iam respondendo como de hábito, com a percussão, com as cordas, com a gaiatice, a cada som que eu produzia ao piano, ao violino, ao contrabaixo, à harpa, ao bandolim, ao fagote, na conversa estranha e espirituosa de sempre. Pela assiduidade dedicada, era certo que supunham ser uma jovem aluna quem fazia as manutenções na sala de música, não eu, a professora cinquentenária. Era certo pensarem se tratar de uma moça e eu folgava com a crença.

Ao fim do meu trabalho e da troca de sons meio primitivos que iam ficando cada vez mais melodiosos, bem casados e divertidos, como das outras vezes, tomei a flauta da caixa e pus-me, da câmara oculta, a tocar uma canção ao meu público do passeio. Era a intenção, ao menos. Porém, não fui além das primeiras linhas da “Flor Amorosa” do Joaquim Callado. Ao invés de apenas me fazer ouvir e ser acompanhada por alguma percussão dos meninos, fui interrompida pelo sopro de mesma natureza, executado com perfeição ímpar, a tentar me acompanhar do lado de fora.

Flor Amorosa

Quando avistei a esquina novamente pelas frinchas da janela, o moço de chapéu branco havia desocultado as mãos e revelara a sua própria flauta, metálica e reluzente ao sol ainda restante, antes escondida às costas. Percebendo minha sombra por trás da janela, deu um largo sorriso que fez desaparecer toda a seriedade anterior, seguido de um adeusinho. Combinou algo segredado a um dos amigos e, com o acompanhamento desse seu cúmplice, executou o início de “Dá-me um beijo”, famosa nas apresentações do Grupo do Malaquias há muitos anos.

Dá-me um Beijo

Eu ri da audácia: da audácia, da música já antiga, do ato em si. Pensei um segundo. E, sempre logo acompanhada por algum dos galhofeiros, muito bons de improviso, respondi com uma estrofe da humorada “Sinto muito mas não posso”, dos Eymard, o que levou aos lamentos dos rapazes após trocarem entre si repertórios para confirmar a mensagem, recurso de que apenas o rapagão não precisava nunca, conhecedor de tudo e leitor imediato dos significados.

Sinto Muito Mas Não Posso

O moço do chapéu branco abriu os braços num gesto de lamento, sem desfazer de todo o sorriso em seu choro brejeiro. Não se manteve fora de ação. Apontou com o instrumento a janela fechada, como quem teve uma ideia repentina. Levando a flauta à boca outra vez, executou “Não sei teu nome” de Antônio Picucci. E eu, percebendo tudo logo às primeiras notas, dedilhei o piano com distração, enquanto imaginava alguma resposta.

Não Sei Teu Nome

Mesmo com a estrofe para pensar, precisei de segundos em silêncio. Muitas músicas revelariam Rosa como meu nome, mas eu não poderia me expor assim. Ao mesmo passo, não gostava da ideia de mentir. Foi quando deparei-me com a pianola. Corri a ela, troquei o rolo e voltei à minha flauta, recorrendo assim a Patápio Silva para apelidar-me genericamente “Zinha”, a causar imediato alvoroço entre os garotos, que dançaram em círculo, com os pés leves a tocarem teclas imaginárias no chão.

Zinha

Pedindo calma aos companheiros e demonstrando que esse seria um passo decisivo, o flautista ocupou o bairro, diante da paralisa do grupo, do mais recente “Vem, Vem, Amorzinho”, um samba lamentoso de Caninha, substituindo a flauta por um clarinete saído nem sei de onde, enquanto seu amigo do cavaquinho logo se pôs a acompanhar, dando ainda mais ares de serenata ao espetáculo.

Vem Vem Amorzinho

Como quem fizesse charme, eu poderia ter respondido com “Não sei”, polca de Gasparino, mas nem o cheguei a fazer. A breve ausência levava os diabretes a reproduzirem gestos de sofrimento do coração, como se implorassem o fim de uma tortura que eu lhes impusesse, no temor de que eu tivesse partido, dada a falta de música dentro da Escola. À essa altura, o diálogo instrumental levara a algum ajuntamento animado à calçada e o público ansiava também pela continuidade. Meu interlocutor, então, emendou a “Não tens coração” de Antônio Maria Passos o motivo principal de “Disfarça e passa” de Francisco Antônio dos Santos.

Não Tens Coração - Disfarça e Passa

O pedido era enfático e eu tive que vasculhar meu acervo interno para buscar a solução do impasse. Como faria? Obviamente, disfarçar e passar estava fora de cogitação. Daí toquei, de José Napolitano, “Não estou com muito medo”, mas fiz uma pausa tão evidente na primeira nota que foi impossível não o intrigar.

Não Estou com Muito Medo

Ele levou a mão ao queixo, atinou num levantar de sobrancelhas e sorriu mais largo, batendo com o indicador três vezes na têmpora e piscando rapidamente um dos olhos. E uma quietude tomou as ruas do Estácio.

O homem voltou-se aos amigos e ao público, ainda a não compreenderem, balançando a cabeça em negativo. Levantou o chapéu em despedida na direção da janela com a mesma simpatia de todo o tempo. Depois foi-se embora, enquanto o quarteto fazia movimentos de choro de palhaços de circo. Seguiram o outro como crianças que vão atrás do flautista mágico de Hamelin, ele tocando “Salve a Princesa de Cristal” de Irineu de Almeida, eles acompanhando com os demais instrumentos, tudo logo depois transformado em um pequeno Carnaval, mas um Carnaval que anda, também engrossado pelos demais passantes espectadores do teatro. E tanto andou e andou que foi desaparecendo.

Salve a Princesa de Cristal

E eu retornei, agora baixinho, ao Callado, mas apenas o começo da canção, interrompida pela risada que escapuliu de mim e passeou pela flauta adentro.

Fragmento de fotografia aérea do bairro do Estácio (do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 1930 [?]); a arte é nossa, com auxílio de Inteligência Artificial.
Fragmento de fotografia aérea do bairro do Estácio (do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 1930 [?]); a arte é nossa, com auxílio de Inteligência Artificial.

(Os arquivos musicais editados para esse conto encontram-se disponíveis no site discografiabrasileira.com.br e estão em domínio público.)

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5 comentários

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Marco Aurelio Louzada
21 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Foi a primeira vez que li um texto tão criativo, intercalando texto e som! Belísissmo! Transportei-me para o cenário, presenciando as ações... Parabens!!!!

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Claudia Teixeira
21 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Você fez um texto plenamente mutimodal: texto, som e imagem! Muito criativo! Um diálogo musical.

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Jonuel Gonçalves
20 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Jonuel Gonçalves: enviei para uma dúzia de amizades.

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Convidado:
20 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Jonuel Gonçalves

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Andréa Motta
18 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Pacheco, que texto incrível! Achei sensacional a sua ideia de inserir as músicas entre os parágrafos!

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Todos esses Contos Conjugados são narrativas de ficção, o que não impede que neles o leitor possa encontrar as suas verdades

(ou as suas genuínas mentiras).

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