top of page

Contender

  • Foto do escritor: Contos Conjugados
    Contos Conjugados
  • 4 de abr. de 2023
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

"Um novo amigo é um fato estarrecedor. Eis a grande verdade!: — vivemos num mundo sem amigos e repito: — a nossa época é de impotência do sentimento. E o que acontece? Acontece que, hoje, o que chamamos de 'convivência' é uma permuta de solidões."

(Nelson Rodrigues

Jornal da Tarde, 04/11/1968)

Por pouco menos de quatro anos, foram vizinhos na mais precisa definição da palavra, já que suas casas ocupavam terrenos contíguos, separados apenas por uma mureta de um metro e meio de altura. Por razões, todavia, creditadas a casualidades, nunca travaram conhecimento mais próximo. O fato é que ambos não eram hábeis para construir amizades, as que cultivavam haviam nascido por iniciativa da outra parte, o que ali não parecia possível, por paradoxo, em função dessa afinidade dos dois temperamentos.

É verdade que saíam para o trabalho diário no mesmo horário e, na sincronia com que chegavam aos automóveis, estacionados lado a lado na larga rua de paralelepípedos do subúrbio, enquanto ajeitavam o nó da gravata ou guardavam a maleta no banco do carona, cumprimentavam-se com cortesia, os habituais bons-dias, bons-trabalhos, boas-semanas, às vezes lindas-manhãs, mas a isso limitavam-se. Prolongou-se o contato somente em uma ocasião, quando a bateria do velho carro do vizinho amanheceu descarregada e Roberto acudira-o fazendo uma ligação em paralelo a partir do seu Omega de primeira mão, adquirido recentemente; durante todo o tempo, porém, foi mantido entre eles um tratamento categoricamente formal.

Em eventuais domingos, no entanto, a relação fantasmática encarnava-se, embora percorrendo o viés da diferença. Roberto havia descoberto que o novo vizinho da casa ao lado era torcedor do Fluminense quando o ouviu comemorar um gol sobre o seu Flamengo nos minutos finais de uma partida. Como não era a primeira vez em que o time tricolor jogava desde a mudança do outro homem para o bairro, Roberto sentiu no alvoroço, repentinamente efusivo, uma resposta à sua própria comemoração anterior, ocorrida ainda no primeiro tempo. Não costumava ser discreto nesses momentos e era possível que algumas expressões berradas tivessem sido confundidas com provocação, ainda que não houvesse como saber até então a preferência clubística do agora conhecido adversário. O fato é que a festa vizinha parecia se dirigir de modo específico à sua casa, como contragolpe, pois o homem abriu justamente a janela lateral para a mureta que divisava os terrenos enquanto deixava a sua alegria evadir ao espaço. O resultado de empate daquela ocasião não trouxe então consequências maiores tampouco prorrogação das celebrações de qualquer um dos lados, mas estava fundado a partir daquele dia o confronto, algo sigiloso, algo solene, entre os dois homens.

Daí por diante, toda tarde de Fla-Flu colocava em dúvida o tradicional caráter sacrossanto dos domingos. Roberto fazia barulho nos gols rubro-negros e o torcedor tricolor retribuía em todas as oportunidades. Nunca, porém, falavam-se diretamente; pelo contrário, calavam-se no momento da farra rival, se não por respeito ou mesmo desgosto, sobretudo no intuito de não se instalar nada que parecesse discussão, para o que não tinham afinal intimidade. A mulher de Roberto percebia a lógica da burla e advertia o marido, não fosse criar inimizade com os novos vizinhos, estabelecera relação amigável com a esposa do outro, mas ele pensava que ela não compreendia o código das brincadeiras entre torcidas concorrentes e as fronteiras civilizatórias desse estatuto social não declarado. Ademais, a própria ausência de familiaridade entre os dois parecia protegê-los de acirramentos.

Ocorre que as troças foram acumulando-se nas dezenas de meses que se seguiram. Pelas manhãs, eles cultivavam o ritual dos bons-dias e das boas-semanas, mas Roberto passou a encontrar em sua porta, nas segundas-feiras que sucediam vitória do Fluminense contra o Flamengo, o exemplar cor-de-rosa do jornal esportivo da cidade, em geral arrumado para que estivessem bem à vista manchetes como “Fluzão dá um banho no Fla”, a enaltecer cada conquista. O vizinho, que nesses dias acordava mais cedo para ir à banca, ao invés de partir diretamente para o emprego após a entrega do jornal, fazia questão de retornar à casa para sair novamente apenas no costumeiro horário de se encontrarem, certamente no intuito de instalar alguma dúvida sobre sua autoria no presente de grego e também testemunhar a efetivação da pilhéria.

Em resposta, Roberto, por sua vez, abandonou o radinho de pilha de estimação que ainda usava grudado ao ouvido para acompanhar as pelejas e trouxe finalmente da loja de eletrodomésticos em que era sócio o mais moderno aparelho de som 3 in 1, passando a colocar uma das caixas acústicas na janela de casa e a aumentar o volume nos gols do Flamengo. Quando seu time fez três gols para superar uma desvantagem de dois, ousou ao fim da partida posicioná-la sobre o próprio muro, no limite máximo de uma invasão domiciliar que tecnicamente não se concretizava, obrigando o vizinho, para proteger-se do estrondo que lhe tomava a propriedade como o grande Alexandre, a fechar toda a casa, apesar do calor daquele início de noite e da evidência externa de que sua residência não dispunha de aparelho condicionador de ar.

Quando o Flamengo repatriou um craque brasileiro mundialmente consagrado, o outro torcedor acusou o golpe e instalou, pelo seu lado do terreno, uma longa sequência de folhas de compensado para improvisar uma barreira que estendesse em mais de metro a altura da mureta entre as residências. As duas esposas, que conversavam nas manhãs em que lavavam roupa ao mesmo tempo nos fundos das casas e então não podiam mais se ver daquela posição, lamentaram a muralha, como a chamaram, ao se encontrarem no retorno da feira: Roberto parece se transformar em outro homem por causa de futebol, Arthur também e eu não compreendo esse fanatismo bobo, Garanto que ele não é assim normalmente e peço desculpas, Meu marido também é em geral um homem pacato, Talvez fossem vizinhos normais se torcessem para o mesmo time, Ou se gostassem menos de esportes e preferissem música ou política.

Mas não durou muito a expansão protética do muro. No primeiro empate sem gols, o vizinho certamente concluíra que, como se diz, não seria o diabo tão feio e, no dia seguinte, as folhas de compensado desapareceram. Realmente, os jogos ulteriores, com vitórias do Fluminense, justificariam o despertar do seu otimismo. Assim foi, e por mais cedo que Roberto tentasse sair de casa no início da semana o jornal cor-de-rosa sempre chegava antes ao chão de sua varanda. Uma partida de sete gols, em que o Flamengo estivera três vezes à frente no placar e acabou derrotado no fim, constituíra verdadeira batalha de festejos: de novo caixa de som sobre o muro, desta feita as duas, mas recolhidas às pressas antes do fim, substituídas pelo carro do vizinho trazido até o quintal para que o rádio vazasse pelas portas abertas a reprise da narração de todos os tentos do seu time, com a voz do locutor acompanhada dos agudos e graves da buzina paquerinha do Fusca 79.

Roberto achou que a situação seria diferente numa partida decisiva que veio a seguir, mas àquela tarde chuvosa um inusitado, mirabolante, extravagante gol do Fluminense no fim do jogo desempatou a partida e tornou-o campeão da cidade após anos sem título, desvairando por completo o vizinho. Juntaram-se ao som do automóvel e de sua buzina um estoque sem fim de morteiros e ainda, alocado na varanda de sua casa, um conjunto de bateria que nitidamente ele não fazia ideia de como tocar e que arranjara apenas para fazer mais estardalhaço. Roberto tentou sair de casa, mas não queria arriscar andar na rua e lidar com a chacota de outros vizinhos torcedores de distintas agremiações e a alternativa segura e privada de um giro de carro foi vetada pela esposa, que escondeu suas chaves para não permitir que dirigisse após ter acabado de esvaziar tantas garrafas de cerveja.

A pândega adversária na casa ao lado não tinha fim e, no auge do seu azedume, Roberto, ao primeiro minuto após as 22 horas, ligou para a polícia, apelando à inapelável Lei do Silêncio. A patrulha chegou logo e ameaçou apreender do Fusca à bateria se o prejuízo à ordem não cessasse. Acontece que o vizinho, que nem era dono dos instrumentos e precisava devolvê-los sem avarias, também estava bastante embriagado, desacatou aos guardas e findou conduzido à delegacia. A mulher condenou Roberto, disse que avisara, que conhecia a pobre da vizinha e sabia que o casal ao lado eram pessoas trabalhadoras que viviam sem confortos e mesmo com algumas dificuldades e que ele devia ter vergonha de mandar para a cadeia alguém honesto e por motivo tão fútil quanto um jogo de futebol.

Ora, ele não chamara a polícia para prender o outro, queria apenas acabar com o furdunço, o cárcere, se fosse o caso, seria responsabilidade do próprio vizinho, mas, àquela altura, as palavras da mulher pesaram-lhe a consciência, especialmente porque ele já estava em uma etapa sempre mais triste de seu processo de embriaguez. Pelo basculante da cozinha, o olhar clandestino buscava verificar o retorno do homem, deparando-se minuto a minuto com a casa ao lado apagada. À meia-noite, já mais curado do pileque, liberado para usar o carro, foi à DP. Percebeu a mulher do vizinho na calçada, desviou-se com sucesso e conseguiu chegar ao delegado. Roberto, no entanto, não podia solucionar a questão retirando a queixa, porque a fizera anonimamente e o infrator afinal havia sido pego em flagrante; a prisão, ademais, não se dera pela barulheira, mas pelo desacato. O chefe de polícia estava irredutível e disposto a liberá-lo apenas no dia seguinte, porque o homem reproduzira as má-criações em sua presença e, além de tudo, o delegado também torcia para o rubro-negro e a chegada do tricolor foi encarada por ele como oportunidade de desforra. Não restou a Roberto alternativa: abriu a carteira e pagou a fiança, escapulindo dali sem ser visto e antes que o outro fosse posto em liberdade.

No raiar da segunda-feira, Roberto abriu a porta ainda com a cabeça pesada pela noite insone e o efeito da ressaca. Apesar de tudo, o vizinho não se atrasara para o trabalho e saía de casa no mesmo segundo. Seu rosto amassado e a gravata mal ajambrada confirmavam a noite difícil. Roberto temia que o homem tivesse certeza de sua culpa na prisão e, pior, nem desconfiasse de sua atuação na soltura, o que poderia fazê-lo reagir de modo imprevisível, até violento. Mas dissiparam os receios os bom-dia, bom-trabalho e boa-semana, trocados ainda por cima da mureta. Roberto dessa vez observou, imóvel na soleira de sua varanda, o vizinho caminhar até o Fusca e partir. Olhou para o chão e não viu o jornal cor-de-rosa. Havia guardado todos os outros e, segundo confessou somente para si, lamentou não ganhar esse último.

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


Todos esses Contos Conjugados são narrativas de ficção, o que não impede que neles o leitor possa encontrar as suas verdades

(ou as suas genuínas mentiras).

bottom of page