Defenestrar, 2
- Contos Conjugados
- 21 de jan. de 2023
- 9 min de leitura
Atualizado: há 4 dias

“E assim como tu resides
nessa gaiola, cingida,
o vasto espaço que sobra
da tua gaiola-ilha
é como outra gaiola
igual que o mar: sem medida
e aberto em todos os lados
(menos no que te limita).”
(“Mulher vestida de gaiola”,
João Cabral de Melo Neto)
Quando se torna intolerável para ela estar sozinha sem poder sair do apartamento, resolve exibir uma mensagem à janela. Avalia as da sala e do quarto, voltadas para a rua, mas pensa que a distância em relação às moradias do lado oposto da Avenida impedirá a comunicação. Ela mesma não é capaz de ler qualquer coisa no prédio em frente ao seu; mesmo a placa com letras grandes que há em um dos imóveis deixa-lhe a dúvida se o oferece para venda ou aluguel. Sente, por isso, que precisa trocar os óculos, cujas lentes perdem potência, mas a expressa proibição legal de que as pessoas deixem o espaço da casa exceto por específicos motivos não autoriza visita ao oculista.
Opta então pela janela da cozinha, que dá para o fosso hexagonal do edifício. Duas faces, essa e a do basculante do depósito contíguo, são do seu imóvel. Nas paredes seguintes, a dupla de lados, fechando o estreito hexágono de dois metros de apótema, multiplica-se por três, sugerindo a existência de dois potenciais vizinhos de andar, em caso de ocupação dos imóveis. Cada patamar igualmente se desdobra em outros três para cima e para baixo, totalizando sete andares. Lá embaixo, divisa-se uma curva do saguão da garagem, onde há um espelho convexo com a função de dar segurança às manobras dos carros que entravam e saíam do prédio. Não parece mais útil, já que agora praticamente nenhum automóvel transita por ali.
Como você passa por esse isolamento?
Esteve na janela o dia inteiro, sem resposta. Haverá quem veja a mensagem escrita à mão com caneta hidrocor preta? Nunca se preocupou em saber sobre moradores do seu andar nem cruzou com ninguém em corredores ou elevador. Tenta concentrar-se em suas tarefas, sem sucesso. Revisa uma nova tradução de Ficções de Borges, a princípio correta, mas não traz novidade em relação a antecessoras. É provavelmente pior, mas deve ser mais barato para a editora do que consagrados trabalhos anteriores.
Ao fim da tarde, solicita ao assistente virtual a configuração 1: as persiana se fecham, as luzes se acendem e os quadros genéricos de flores e pássaros, semelhantes aos do escritório, projetados na parede atrás da escrivaninha são modificados por uma fotografia antiga sua com os pais e uma Composição de Kandinsky, enquanto o silencioso aparelho de ar-condicionado é desligado e uma música suave invade o ambiente. O processo causa sempre o efeito, talvez fruto da iluminação diferenciada, de que o pé direito do apartamento se torne mais baixo. Quando se dirige à cozinha para providenciar o jantar, depara-se com algo numa das janelas vizinhas. Impressa em papel, há uma mensagem.
Estou só, creio ser também como se sente.
Tenta ávida olhar através do vidro, cuja opacidade, porém, não permite penetrar o apartamento vizinho mais do que centímetros. E nenhuma luz facilita a busca por companhia humana. Se quiser delinear o autor da frase, portanto, precisará usar algum sentido outro, menos físico do que mental.
Reflete por toda a refeição sobre o efeito das palavras. Em sua concisão, a frase demonstra a percepção de que, se ela escreveu a pergunta provocadora, confessava de antemão sua própria solidão. Julga, um pouco assustada pelo repentino desnudamento de si, que, desse modo, e não somente por sua vidraça ser quase translúcida, o interlocutor sabe mais sobre ela do que o contrário. Esforça-se então para fazer leitura do outro autor e supõe certa empatia no caráter do seu novo conhecimento, concluindo, entre instigada e temerosa, por seguir a conversa. De posse do hidrocor, escreve, em tom francamente confessional, porque é melhor revelar seu íntimo com intenção do que por descuido.
Vivo o massacre de minhas ausências todas.
Nessa noite, dorme mal, assombrada pelo círculo da tela de Kandinsky, que a aprisiona e segrega no canto do quadro, apartando-a das demais figuras. Assim que acorda, ordena ao assistente virtual a alteração da imagem na memória por outra obra no modo aleatório, mas não verifica o resultado porque, atrasada, pede em seguida a opção 2, configurando o ambiente para o trabalho.
Segue a revisão do texto, dessa vez constatando em determinados contos alguns problemas. Em “A Biblioteca de Babel”, um equívoco: “A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que tudo está previsto nos anula ou nos fantasma.” A antipatia pelo verbo final quase não a faz perceber a liberdade poética que o tradutor se permite ao trocar o literal está escrito por um impreciso está previsto. Com os olhos pesados, vai à janela da sala para dar a eles horizonte em que possam descansar. Encontra mais do que ansiou, talvez efeito das lentes dos óculos cada vez mais desatualizadas no seu progressivo problema oftalmológico, os prédios no lado oposto da Avenida, mais vazia, parecem ter aumentado sua distância. Já não consegue discernir se a placa no imóvel do lado oposto da rua diz “Vende-se”, “Aluga-se” ou “Fique em casa”, “Fique só”.
Volta-se para dentro, com vertigem. Na cozinha, à procura de café, por olhadela periférica, tem a sensação de movimento no apartamento vizinho, o da mensagem. Aproxima-se rápido e debruça-se um pouco no parapeito, dando-se conta decepcionada de que nada mais era do que seu próprio reflexo no vidro alheio. Nesse movimento, entretanto, verifica que outras janelas não estão vazias. O terceiro apartamento do seu andar, mais à direita, segue em silêncio, mas nos três acima identifica, à mão ou impressa, em preto ou azul ou vermelho, sob fonte ou caligrafia diversas, outras frases. Leu-as de cima para baixo.
Lembro o beijo e o abraço como uma vã ficção
Uma passagem imaginada de um filme
As letras fantásticas de uma narrativa
Sua iniciativa seria o catalisador de tais reações? Ou as sentenças, que afinal pareciam se completar, teriam sido por coincidência postadas antes, sem que ela as houvesse visto? Essas janelas encontram-se também fechadas, o que ela estranha mas logo entende: a posição facilita a exposição dos cartazes. Recua, ainda assim, receosa. Dorme sem jantar.
Somente no dia seguinte observa na parede de sua sala o famoso quadro de Escher que substituiu o do artista abstrato russo na decoração, enquanto na foto em preto e branco com os pais verifica falha na projeção a impedir que se visualize a metade superior da imagem, restando apenas ela, criança, vestido de festa, de pé, as pernas dos adultos de um lado e de outro. Os pais desaparecem na imagem como desapareceram de sua vida — ou foi o contrário? Há tolices abstratas que, quando ditas, materializam-se em definitivo. Não há, contudo, tempo para corrigir o problema técnico porque percebe que o primeiro vizinho a lhe responder no fosso do edifício modificou a frase exibida.
Há paúra e horror nas palavras sob os dedos.
Nos seus? Do vizinho? De todos? Responde contrapondo.
‘Sperança e medo digladiam-se no espaço.
Urge terminar a revisão. Impulsiona-a sua costumaz responsabilidade com prazos e não carências financeiras, as quais ela nem sabe se sofre, visto receber os valores, por tarefa terminada, na conta bancária, de onde são automaticamente debitados todos os impostos, tarifas e custos, de modo que não tem ciência de quanto lhe resta em caixa ou do eventual valor que pode estar a dever à instituição financeira.
Mas de novo seu rendimento no trabalho é baixo. No meio da tarde, seu novo interesse faz com que procure por mensagens; encontra as mesmas, mas intui que poderiam existir outras acima ou abaixo do próprio apartamento, com dificuldades de visualização. Debruça-se, mais do que antes, mas conclui não ser possível fazê-lo sem risco de cair no fosso. Repensa a estratégia. Tudo o que consegue perceber, casualmente, é que, à falta de manutenção, o espelho do saguão da garagem teve uma haste rompida e, assim, voltou-se para o alto. Dá-se conta do perigo da queda justamente ao ver seu irrefletido movimento refletido na superfície convexa. Cogita que carece de tática mais previdente e dirige-se ao cômodo contíguo; do basculante do depósito, num ângulo sessenta graus distinto, haverá de identificar outros cartazes, se houver. De fato os descobre, mas provoca em sua cabeça muita confusão com todos eles, porque dali a sensação é a de que as frases encontravam-se baralhadas, em locais permutados, como se estivesse a ver então outro espaço hexagonal, alternativo ao original. Por exemplo, no lugar que identifica logo à direita, que devia ser a sua janela, ela lê
Árvore insulada, que nunca frutifica,
e, no andar abaixo, o complemento
Ocupa espaço mas não nos sustenta o corpo.
As anotações afetam-na mais do que sua inexplicável distribuição. Volta à cozinha para conferir a disposição original (a real?), mas não se empenha nisso. Apenas escreve novo papel e expõe à janela.
Concentricidade excentricidade instâncias...
Com o passar dos dias, procede a revisão que lhe foi encomendada com frequência cada vez menor, até abandoná-la totalmente e o assistente virtual, concluindo sozinho que a falta de continuidade representa o encerramento da tarefa, envia à editora um e-mail escrito automaticamente que estava na caixa de rascunhos, dando aval à tradução. Ao constatar isso, ela escreve outro na sequência, em que não se corrige e, pelo contrário, solicita férias, a fim de se dedicar inteira ao colóquio em que se lançara.
Anota todas as inscrições. Tenta estabelecer uma ordem que lhes dê sentido. Exceto por esporádicas vitórias, falha quase sempre, sobretudo quando as observa pelo basculante, que fornece sempre uma nova organização das mensagens. Por vezes, ordena trechos que surgem e desaparecem separadamente mas que fazem mais sentido quando unidos.
Vivemos sob a espada invisível da morte
C’um exame que nos mede a perenidade
Cujo cálculo não podemos conferir
Às mãos, um diagnóstico sempre lacrado
Um bafo de expectativa então a atinge, como se estivesse perto de desvendar os mistérios, ao perceber indícios de que não se trataria o conjunto de uma obra de autoria de vários vizinhos, mas de um obscuro gênio anônimo. Teria ele acesso a todos os imóveis? Mas, se suas próprias mensagens por vezes pareciam suplemento indispensável a outras, teria ele acesso também ao seu apartamento? Antes: teria acesso a si mesma?
Na sala, onde trata as informações, a configuração 1 é agora permanente — dado o afastamento do trabalho, ela não vai mais ao escritório — no que contudo não repara, deixando a casa a cargo do assistente, que se responsabiliza pelo acionamento da autolimpeza local e mesmo pelas compras que lhe aparecem na porta (e que ali se acumulam e apodrecem, porque já pouco se alimenta). Ela não verifica nem mesmo que o programa modificou a obra de arte na parede por um quadro diferente de Escher, igualmente afamado. Somente quando a fotografia com os pais desaparece por completo, restando apenas um espaço luminoso sem imagem, ela desconfia que a memória do aparelho não parece mais compreender seus desejos. Ordena que o assistente recupere a foto imediatamente, no entanto, articula as palavras sem clareza e não é atendida. Arremessa então o aparelho contra a parede, destruindo-o exatamente onde o foco de luz se apaga.
Volta a se dedicar à tarefa que já lhe ocupa há semanas. Por vezes, surge-lhe afinal uma frase que parece genesíaca, adequada ao início de tudo.
Pelas janelas, a dialética do caos
ou
Nada mais se multiplica exceto palavras
Vibra como uma criança que encontrou a figurinha primeira do seu álbum ou a própria Eva testemunhando a nomeação do mundo; mas logo põe em dúvida a conclusão e estima que talvez o fragmento em voga mais bem figure no apocalíptico encerramento de tudo, se houver.
Um dia, a junção de um dístico (há muito não restam dúvidas se tratar de versos) leva a uma espécie de epifania.
Não lembro que cidade se encontra lá fora:
Madrid, Paris, Berlim, Rio de Janeiro, o mundo.
Com efeito, ela não recorda onde vive. Tem como primeira reação solicitar que o extinto assistente virtual lhe abra a persiana da sala, mas a imobilidade de tudo é única resposta possível. Atabalhoada, descerra manualmente as placas corrediças horizontais em que não está habituada a mexer e afinal estabelece contato visual com o espaço externo. Não pode mais divisar os prédios no lado oposto da Avenida, que parece ampliada em muitas pistas, até o horizonte — efeito do vazio, já que nem um único automóvel segue pela via, então tomada pelas folhas secas outonais, ou seu problema de visão a leva a ver imagens se desdobrarem? No fosso do edifício, o fenômeno também acontecia há alguns dias, porque, acima ou abaixo do seu apartamento, os andares gradativamente se avolumaram e seu início ou fim agora, aos seus olhos, perdem-se no infinito.
Senta-se atordoada em uma poltrona, na qual afunda. Mas eis que a falta de percepção física desses pontos extremos condiciona seu raciocínio e leva ao pensamento de que também o grande poema não tenha princípio ou término. Sugere-se primeiro a circularidade das mensagens, até concluir por uma segunda teoria, mais elaborada, a da simultaneidade — tudo é presente, como lera recentemente: “o futuro não tem realidade senão como esperança presente, o passado não tem realidade senão como lembrança presente, apenas no presente ocorrem os fatos”. Os versos devem ser declamados ao mesmo tempo — essa é a resposta!
Levanta-se num salto. Escreve então dois papéis, as mãos a tremer, e expõe ambos à janela simultaneamente:
Busco n’Outro Eu-Mesma p’ra não enlouquecer.
Busco Eu-Mesma n’Outro p’ra não enlouquecer.
E então todas as janelas iluminam-se juntas. Logo são abertas. Em cada uma, até onde se pode com a vista alcançar, ela vê surgir alguém. E apresentam todos a mesma imagem de si própria.



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