Corporativar
- Contos Conjugados
- 22 de out. de 2022
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Atualizado: há 5 dias

Por funcionar ao lado de uma Escola Infantil chamada Reizinho Azul aberta até às 19 horas, o empreendimento comercial, média empresa de cerca de 60 funcionários do ramo hoteleiro/barista e de serviços pessoais, era conhecido pelo público local como Fadinha Vermelha, em função da luz acima da porta de entrada, lâmpada de pouca potência sob a cúpula de vidro antiga e suja que era usada para indicar que o espaço noturno estava em atividade, o que se dava logo após o serviço vizinho encerrar portas.
Nos últimos dois meses, todo dia ele era o primeiro cliente e aguardava com paciência as últimas criancinhas da Reizinho Azul afastarem-se antes que se acendesse a sinalização do início do expediente liberando a entrada. Então, dirigia-se sempre ao balcão do bar sem se importar com outros atrativos e escolhia o mesmo banquinho redondo com o estofado creme, cujo tempo de uso expunha o enchimento de bloco de espuma. Bebia a noite inteira e, quase pela manhã, ia embora, sempre à mesma hora. Vestia em geral roupas sociais um pouco envelhecidas, com a gravata, já desfeita àquela hora, bastante puída no lugar habitual do nó.
É possível que viesse à Whiskeria de las Señoritas, razão social da empresa, diretamente do emprego, a julgar pelos trajes e pela hora em que chegava. Ali permanecia de segunda à sexta até quase de manhã, sozinho e calado, apenas consumindo as bebidas no bar. Nas madrugadas de sábado costumava sair mais cedo e nunca aparecia aos domingos, talvez por ser dia santo ou por se distrair com futebol. Não era bonito embora também estivesse longe de ser feio, o que devia levá-lo a ser um homem raramente notado na multidão. Se esse era um traço que ele mesmo considerava vantajoso, seria possível afirmar uma vez conhecida a sua personalidade — jamais, contudo, souberam nada sobre o rapaz.
Não foi percebido em sua primeira visita. Somente na terceira ou quarta noite, Julianna reparou no potencial cliente, porque ainda era cedo e não havia outro freguês presente. Aproximou-se e exibiu parte de sua expertise: ofereceu-se com o olhar, dançou na sua frente com os seus famosos decotes, pôs uma das pernas sobre a dele. E o homem limitou-se a olhá-la educadamente, sem simpatia nem reprovação, continuando depois a tomar o seu conhaque. Sem grande empenho na ocasião, a bela moça foi se preparar para receber outros clientes; workaholic, tinha estipulado para si um mínimo de oito por noite nos pacotes de serviço mais completos, ao menos de segunda à quinta, quando o movimento era menor.
Uma vez que Julianna, dos mais cobiçados ativos da firma, não conseguira cativar o novo cliente, nenhuma outra julgou producente perder tempo. Porém, duas semanas depois, Paulinha, conhecida pela ofensiva alcunha de Broad Band, mulher alta com carnes muito redondas onde em geral interessava e também onde em geral não interessava aos clientes que assim o fossem — de todo modo, cabe destacar, muito requisitada no estabelecimento e com o maior índice de fidelização local e de manutenção do engajamento de leads — rebolou em sua direção balançando o volumoso e quase desnudo busto sob o tomara-que-caia ao olhar pouco interessado do estranho homem, que não demonstrou ser seduzido em momento algum.
É evidente que a investida de Paulinha deixou Julianna apreensiva, dada a competição velada entre as funcionárias, estimulada por Cani. O gerente geral, autointitulado Chefe Executivo de Operações, um uruguaio meritocrata que exigia inutilmente que o tratassem por Navaja, segundo ele seu real sobrenome, via nos conflitos controlados uma sempre eficiente forma de proteger a instituição de presumíveis organizações sindicais e associativas das garotas, no limite preciso de não comprometer o clima organizacional do Fadinha Vermelha. Havia por exemplo alcançado fazer sem grandes resistências o último turnover, que as meninas vulgarmente chamaram de passaralho, a isso porém restringindo o protesto.
Com efeito, seria um impiedoso trauma à imagem de Julianna ser preterida pelo cliente para logo depois ver Paulinha vender o serviço que ela não conseguiu que o homem consumisse. Por isso, temendo que a tragédia se concretizasse em nova investida e abalasse seu status profissional, no dia seguinte resolveu que daria cabo do assunto dedicando-se a ele full time. Fez longa sessão de vitrinismo: caprichou na maquiagem, passou no corpo a lavanda mais cara e usou a roupa que valorizava suas melhores curvas, vestido reservado a ocasiões em que sabia da visita de um key account, amigos da casa como jogadores de futebol, pequenos investidores ou vereadores e deputados estaduais com vários mandatos acumulados.
Não começou a tarefa se oferecendo de forma ostensiva. Conversou e dançou com outros homens, sem contudo concretizar negócios; optou em alguns momentos por trocar breves palavras com o garçom e parou ao lado do misterioso cliente sem o olhar; vez ou outra lhe tocava casual e ligeiramente o braço apoiado no balcão com um dos seios, escondido sob o tecido finíssimo; em certa oportunidade, posicionou-se entre ele e o ventilador de parede para que seus fios de cabelo mais leves fossem levados a lhe acariciar o rosto — tudo sem aparente sucesso. Noite avançada, ao som de uma agitada canção cuja letra instruía passos coreográficos, ela começou a bailar próximo a ele de um modo que era até displicente, esforçando-se na sensualidade, mantendo escondido o que ainda lhe era mistério, mas expondo rapidamente parte da roupa íntima inferior em movimentos lascivos que a levavam ao agachamento breve. Diante da inutilidade dos métodos, mudou a abordagem para uma tática mais agressiva e com menor requinte, lançando mão de todo o restante do seu know how: sentou em seu colo cruzando as pernas grossas nuas, segurou o seu rosto com as mãos esfolando-as um pouco na aspereza da barba por fazer, teceu-lhe elogios, sentiu o cheiro peculiar do seu perfume, chamou-lhe amor, passou horas tentando encantá-lo... até desistir, espalhando à boca pequena, a fim de não colocar em xeque seu approach e não arranhar seu prestígio, que o talzinho devia ser viado.
Dali por diante, muitas tentaram ganhar o cliente, num sistema job rotation. Primeiro foi Ilza, jovem que mancava da perna esquerda e tinha uma cicatriz de facada que ia da mão direita até o cotovelo, o que a obrigava a usar pouquíssima roupa da cintura para baixo a fim de compensar a constância das mangas compridas do figurino. Depois foi Madalena, figura mignon e deprimida que, após ter trabalhado por curto período no exterior e frustrado seus planos de imigração à Europa, vivia lamentando a vida e já tentara três vezes o suicídio. Vieram em seguida a escandalosa Mixelle, que tinha dois filhos mas pouco os podia ver porque estavam à noite com a sua mãe e na Reizinho Azul durante o dia, e a Gêmea Vanessa, segundo se apresentava, cuja irmã ela dizia ter morrido há vários anos, muito embora, ao que parecia, fosse filha única e tudo não passasse de uma oblíqua estratégia de marketing. Até mesmo a tia Zazá, veterana cuja idade era um segredo industrial e que mais recentemente havia sido readaptada para a função de costureira, aventurou-se na empreitada, bem esperançosa de que o homem estivesse ali em busca de background, como se naquela profissão não aumentasse a procura pela mercadoria e o seu valor intrínseco justamente a concisão da carreira. E restou a Pâmela, a Travesti, comprovar que o problema do cliente misterioso não tinha relação com hipótese antes elaborada; talvez fosse impotência, segundo ela arriscou.
No decorrer de algumas semanas, Julianna acompanhou todos os investimentos sobre o inalcançável cliente e foi com grande desdém que reclamou à Mixelle que a Broad Band tinha voltado ao projeto três dias depois da desistência de Pâmela. Considerou que era hora de pensar gráficamente (expressão que Cani costumava usar nas palestras motivacionais à equipe, aparentemente sem saber ao certo o que significava) e resolveu então investigar aquele não-cliente. Certa tarde, oferecendo-lhe trocados, encomendou ao garçom uma coleta de dados para executar o seu business intelligence.
— Já tentei conversar com o homem, Julianna. Ele não gosta muito de prosear e não descobri muita coisa. Resolvi não insistir para não correr o risco de espantar o camarada do único lugar que frequenta por aqui — e sussurrou — O Dr. Canivete ia ficar furioso.
— Esqueça o eunuco do Cani, — ela gritou, a quem quisesse ouvir — pouco me importam os centavos que ele ganha com birita! — Julianna tinha o tom arrogante das estrelas das antigas companhias mambembes, acreditava de verdade ter nascido para o glamoroso mundo artístico e que ali estava por um irônico desvio — Quero que você descubra qual o filme, o ritmo, o motel favorito dele, se é casado ou comprometido, se tem uma mãe doente, um emprego entediante, se é virgem, brocha ou qualquer coisa. Dê uns drinques por conta da casa para amolecer o cara, eu pago depois. Aproveite o meio da noite, ele deve soltar a língua quando estiver mais embriagado.
O garçom tentou com alguma dedicação, mas tudo o que conseguiu averiguar foi certo balanço de corpo quando, por acidente, alguém ligou o rádio numa estação pouco frequente e o ambiente foi invadido pela voz de Sinatra em “Stranger in the night”. Revelou isso a Julianna dando a entender que se tratava de uma descoberta comprovada por horas de conversa sobre o cantor, a quem o freguês teria todo o tempo se referido intimamente como Frank.
A moça então levou dois dias arquitetando seu plano de ação. Foi o deadline informal para as tentativas de Paulinha, que garantia estar aos poucos dobrando o cavaleiro, muito embora em nenhum momento ele tivesse mudado sua expressão abstraída nas conversas em que só ela falava, intermináveis conferências nas quais a moça discursava sobre seus mais íntimos segredos e que duravam a noite inteira. A dedicação impedia-a de bem performar como antes, levando-a mesmo a atraso de aluguel do seu quarto, porque abaixava muitas vezes a zero sua produtividade, a comprometer la eficiencia de la empresa y a alejar a Whiskeria de sus objetivos y metas de desempeño establecidos, segundo passou a reclamar Cani.
Naquela noite decisiva, logo que o cliente chegou, Julianna aproximou-se com dois drinques ao som de um CD de Sinatra. Paulinha, tomada pela surpresa, chamou-a de aquela piranha! a noite inteira, ainda que o uso do específico xingamento fosse passível de multa de acordo com o estatuto do lugar. Ela tentou puxar assuntos aleatórios sem sugestão sexual, depois passou a insinuar o tema. Cochichou expressões tais quais fazer amor e gemer mas não de dor. Não percebendo reações, tentou ser mais explícita, aumentando o tom para falar em penetrar, ter orgasmos, gozar... e foi diminuindo o nível do vocabulário na tentativa de excitá-lo, chegando a expressões como transar, trepar e outras menos publicáveis a audiências mais sensíveis. Finalmente, já quase vencida, como quem abdicasse de algo e lançasse mão de um recurso final de que ela preferia ter se preservado, chegou os lábios bem perto do seu ouvido e segredou algo, tocando-lhe o lóbulo da orelha com a língua quente e úmida. Ele levantou uma das sobrancelhas com discrição, menos pelo contato físico do que pela mensagem, mas não se moveu. Ela sussurrou-lhe mais duas ou três vezes, até que ele afinal a encarou por breves segundos e a pegou pela mão. Os dois subiram as escadas, sob o olhar de reconhecimento de Pâmela, franca admiradora de Julianna; sob a surpresa de Vanessa, cética em relação às chances de qualquer das meninas; sob o aplauso e as gargalhadas de Mixelle; sob a fúria de Paulinha, que não mais negava para si os sentimentos que nutria pelo estranho cliente que a ouvia como ninguém nunca ouviu.
O homem retornou menos de uma hora depois. Todos esperavam que ele partisse, mas o freguês voltou a sentar ao bar, no banco costumaz. Sua expressão distante em nada modificara. Na ausência de Julianna, que não sairia mais do seu quarto naquela noite, o garçom não conteve a indiscrição e perguntou-lhe o que o fizera mudar de ideia. De início o homem não respondeu, apontando para a vodca. Enquanto lhe servia uma dose mais generosa do que as normas permitiam, o funcionário repetiu a pergunta. O cliente continuou calado. Teve então que insistir, precisava saber qual argumento tão irrefutável Julianna usara ao lhe falar ao ouvido, sem mais se importar em não aborrecer o homem ou se preocupar com a expressão de reprovação do Dr. Canivete, porque a curiosidade já superava qualquer risco. Só quase pela manhã arriscou um palpite:
— Por um acaso ela não cobrou o programa?
Ele permaneceu imóvel, saboreando a tequila.
— Ela trabalhou para você de graça? — insistiu o garçom — Pode dizer, eu não vou contar a ninguém.
E o homem, limpando os lábios com a língua, observava compenetrado as últimas gotas da bebida no fundo do copo inclinado.
Até que o rapaz teve um insight e perguntou bem baixinho, ainda incrédulo: — Foi ela que pagou? — e concluiu, pausadamente — Ela pagou você...
Ele finalmente sorriu, sem expor os dentes. Esvaziou o copo e saiu, sem deixar contatos para follow-up.

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